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19/09/2008

ORIGEM E POVOAMENTO

A  Região dos “Campos do Avanhandava” e do “Salto do Avanhandava” no baixo Rio Tietê, quando da chegada dos primeiros pioneiros (brancos colonizadores), era habitada pelos índios Coroados (ou Kaingang ou ainda Caingangue) vindos do sul do Brasil.

O topônimo Ava – Nhandava significa: ” O índio que fala o dialeto Nhandeva“, por isso não se diz: “salto de, e, sim, se diz: “Salto do Avanhandava” ou “Cachoeira do Avanhandava”, e por isso se acredita que os nhandevas predominavam na região quando da chegada dos índios Coroados.

A primeira presença do Estado brasileiro na região foi, na década de 1860, pouco antes da Guerra do Paraguai, uma Colônia Militar (quartel, fortaleza), próxima ao Salto do Avanhandava, que recebeu o nome de Colônia do Avanhandava e o apelido de Degredo.

Naquela época se criaram várias colônias militares em todo o Brasil para proteção das fronteiras e para “proteger a população do interior contra índios selvagens, facilitar as comunicações e o comércio e ajudar os núcleos civis que se fundarem nas suas vizinhanças”.

A Colônia do Avanhandava, localizada próximo ao porto de desembarque, o Porto do Cruz, no rio Tiête, pouco antes da Cachoeira do Avanhandava, junto à estrada que ligava Piracicaba a Paranaíba, foi criada pelo decreto imperial de 18 de março de 1858, e tinha como objetivo, proteger o povoamento da região, onde cinco fazendeiros compraram terras devolutas do governo e pretendiam formar um “patrimônio”, como se chamava, na época, as pequenas povoações, recém criadas, construídas ao redor de uma capela, à qual se doa um “patrimônio“: uma área para praça, capela e abertura de ruas ao seu redor.

A Colônia do Avanhandava deveria servir também de retarguarda à Colônia de Itapura, na foz do rio Tiête. A Colônia do Avanhandava, porém, não prosperou.

Uma missa no sertão:

Hoje, o salto do Avanhandava, a colônia militar e a velha Usina Hidrelétrica de Avanhandava jazem no fundo da represa da Usina Hidrelétrica de Nova Avanhandava.

Posteriormente, próximo ao velho quartel já abandonado e ao Ribeirão do Lageado, se tentou formar, em 1883, pelos primeiros pioneiros, um Patrimônio, tendo como orago o “Nosso Senhor dos Passos”. Este primeiro patrimônio não prosperou porque uma das famílias pioneiras, os Pinto Caldeira, foi massacrada pelos índios em 1886.

Esta família Piinto Caldeira é homenageada dando seu nome ao Córrego dos Pintos, na região do Ribeirão do Lageado, a qual ainda pertence ao município de Penápolis, e foram enterrados no cemitério do Lageado, o qual é o momumento histórico mais antigo de Penápolis e única construção que restou do antigo Patrimônio de Nosso Senhor dos Passos.

Em 1895, o presidente do estado de São Paulo, Bernardino de Campos, autoriza em lei, a construção de uma estrada de Bauru ao Salto do Avanhandava, estrada esta que facilita o acesso à região dos Campos do Avanhandava.

O Patrimônio do Santa Cruz do Avanhandava surgiu, tempos depois, em 1908, em terras compradas dos herdeiros da pioneira Maria Chica pelo empreendedor Coronel Manuel Bento da Cruz e em terras doadas em 1906, pelo fazendeiro Eduardo José de Castilho.

Eduardo Castilho doou, em 1906, para a formação do novo patrimônio, um lote de terras aos frades capuchinhos, e ele e Manuel Bento da Cruz venderam as terras vizinhas ao novo patrimônio para os pioneiros, fracionando-as em pequenos lotes de terras, os sítios.

Manuel Bento da Cruz adquiriu terras públicas em leilão e as registrou em 1907 no cartório de notas de São José do Rio Preto e rapidamente as vendou em pequenos lotes aos pioneiros.

A colonização de Penápolis, portanto, foi feita, como em todo o oeste paulista, de acordo com a Lei de Terras estadual nº 323 de 1895, que só permitia a aquisição de terras devolutas, pertencentes ao governo do estado, em leilão (haste) público.

A Lei de Terras paulista, inspirada na lei de terras do Império do Brasil nº 601 de 1850, exigia também que, em breve, o seu comprador as revendesse em lotes que não podiam passar de 500 hectares em terras de cultura, 4.000 hectares em “campos de criar” e 40 hectares nos lotes suburbanos, sendo considerados suburbanos os lotes a menos de 12 quilômetros do centro da povoação, garantindo, assim, o acesso à terra aos pequenos proprietários.

Assim, para estimular a colonização da região, Manuel Bento da Cruz, Eduardo de Castilho e os capuchinhos fundaram o Patrimônio de Santa Cruz do Avanhandava, em 25 de outubro de 1908, esperando a próxima chegada dos trilhos da ferrovia da NOB. Esta data é oficialmente a data de fundação de Penápolis.

Como marco deste acontecimento, realizaram um primeira missa naquele dia e ergueram eles um cruzeiro em frente ao local onde, depois, se instalou, em 1923, o 1º Grupo Escolar de Penápolis. No lugar onde ficava o cruzeiro, há atualmente uma estátua de São Francisco. Nos patrimônios e cidades daquela época se concentravam os estabelecimentos comerciais, porém a grande maioria da população vivia na zona rural.

Logo em seguida, em 2 de Dezembro de 1908, chegou ao novo povoado, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, na época chamada Estrada de Ferro Bauru – Itapura, que impulsionou o povoamento da região. As estradas de ferro, naquela época, eram fundamentais para o transporte de grãos de café, a maior produção agrícola da época, para o porto de Santos.

A construção dos trilhos da Noroeste do Brasil prosseguiu, em terras pertencentes, na época, à Penápolis, rumo ao rio Paraná onde os trilhos chegaram em 1910, com um número de mortos por malária e por índios de 10.000 pessoas. O primitivo traçadado da NOB era o ramal Araçatuba– Lussanvira (a atual Pereira Barreto), ramal este que margeava o Rio Tietê, sujeitando os trabalhadores da linha à malária.

Em 17 de novembro de 1909, o patrimônio se torna um distrito de paz de São José do Rio Preto, com seu território se estendendo até próximo da foz do Rio Tietê, no Rio Paraná, divisando ali com o distrito de paz de Itapura. Em 22 de dezembro de 1913, Penápolis torna-se um município.

Os pioneiros encontraram seus maiores obstáculos nos ataques dos índios e na malária, na época chamada de maleita e impaludismo. Os índios só foram finalmente pacificados, em 1912, com a ação do Coronel Cândido Rondon, que, por isto, é homenageado dando seu nome a SP-300 que é a principal rodovia que corta a região da Estrada de Ferro NOB (Bauru até a divisa com o Mato Grosso do Sul), atual Novoeste.

Um dos últimos grandes ataques de índios, se deu em julho de 1910, quando o agrimensor Christiano Olsen e sua equipe foram mortos e queimados pelos índios caingangue na fazenda Baguassu, próxima a atual, Araçatuba, região que, na época, pertencia a Penápolis.

A pacificação dos índios realizado pelo Coronel Rondon foi decisiva para o povoamento da região, tanto que o preço do alqueire de terra subiu 1.000% de 1910 a 1914, passando de 13$000 réis a 100$000 réis, indicando um grande aumento da procura por terras após a pacificação. Em 1925, o alqueire de terra, próximo à área urbana de Penápolis, já estava cotado a 1:000$000, ou seja, uma nova valorização de 1.000% em relação a 1914.

Em 1929, a região da NOB, recebeu a visita do presidente de São Paulo, o Dr. Júlio Prestes, o Seu Julinho, que comparou os pioneiros desbravadores da Noroeste aos bandeirantes, desbravando terras e enfrentando perigos de todo tipo.

O Dr. Júlio Prestes

A situação da velha Noroeste do Brasil, que pertencia ao governo federal, melhorou muito, quando, em 1935, o Dr. Getúlio Vargas, iniciou o empedramento da linha férrea, eliminando-se as nuvens de poeira que penetrava nos vagões, e concluiu, em 1940, a construção de uma variante entre Araçatuba e Jupiá, afastando a estrada de ferro das margens do rio Tietê e portanto da malária, (impaludismo).

O primeiro Grupo Escolar foi instalado em 1919 e o primeiro Ginásio Estadual em 1935.

Pouco restou da cultura dos índios Coroados: peças de museu e uma a aldeia Icatu a 35 kilômetros de Penápolis. A cidade foi, porém, enriquecida por várias tradições européias e asiáticas, pois se estabeleceram em Penápolis imigrantes de vários países para trabalharem nas lavouras de café; Vieram também, para Penápolis, muitos migrantes de Minas Gerais, com tradição em engenhos de cana-de-açúcar, doces, queijos e o carro de boi.

História administrativa

Em 23 de março de 1858, o decreto federal nº 2.126, assinado pelo Marquês de Olinda cria a Colônia Militar do Avanhadava, na estrada entre Piracicaba e Paranaíba:

“Art. 1º A Colonia militar estabelecida por Decreto desta data, na estrada que vai da Villa da Constituição em S. Paulo á de Sant’Anna da Parnahyba em Matto Grosso, terá por districto não só huma legua quadrada, que será medida e demarcada, como todo o mais territorio, que for designado pelo Presidente da Província com approvação do Governo Imperial”.

Em 17 de novembro de 1909, pela lei estadual nº 1.177, o Patrimônio do Santa Cruz do Avanhandava é elevado à condição de distrito de paz de São José do Rio Preto e passa a se chamar “Villa de Pennapolis”, em homenagem ao recém-falecido presidente da República Afonso Pena, grande incentivador das ferrovias, e, cujo teor, é o seguinte:

“O Dr. Manoel Joaquim de Albuquerque Lins, Presidente do Estado de São Paulo, faz saber que o Congresso Legislativo do Estado decretou e eu promulgo a lei seguinte:

Artigo I: Fica creado, no município e comarca de São José do Rio Preto, o districto de paz de Pennapolis, no povoado e estação de Santa Cruz do Avanhandava, da Estrada de Ferro Noroeste do Brazil”.

Outra povoação recebeu também, naquela época, o nome de Penápolis: a atual cidade de Rio Branco, no Acre.

Em 16 de dezembro de 1910, pela lei estadual 1.225, o Distrito de Paz de Penápolis é transferido para o município e comarca de Bauru. Pela mesma lei, é incorporado à Penápolis todo o território pertencente ao, então, extinto distrito de Itapura.

A “Villa de Pennapolis” foi desmembrada do município de Bauru e elevada à condição de município, em 22 de dezembro de 1913, pela Lei estadual nº 1.397, passando a se chamar Município de Pennapolis. O novo município possuia dois distritos: Penápolis e Miguel Calmon, hoje chamado Avanhandava.

Dentro do município de Penápolis, em 1914 é criado o distrito de paz de Birigui, em 1917 o de Araçatuba, em 1919, o de Promissão, em 1920, o de Glicério e em 1934, o de Alto Alegre.

A Câmara Municipal de Penápolis foi instalada em 11 de maio de 1914.

O município foi elevado à condição de comarca, em 10 de outubro de 1917, pela lei nº 1.557. A instalação da Comarca de Penápolis ocorreu a 27 de julho de 1918. Nos documentos anexados ao projeto de lei nº 3 que deu origem à lei que criou a comarca, há uma estatística que informa que em agosto de 1915, Penápolis contava com 2.549.826 pés de café produzindo, plantados por 287 proprietários.

Hoje, a Comarca de Penápolis abrange 7 municípios: Penápolis, Glicério, Braúna, Alto Alegre, Avanhandava, Luiziânia e Barbosa.

O território original do distrito de paz de Penápolis, estabelecido em 1909, era muito grande, partindo da atual Promissão e compreendendo grande parte das terras da Alta Paulista e indo até à barra do Córrego Três Irmãos, próximo à Barragem Três Irmãos, perto da foz do Rio Tietê no Rio Paraná. O Córrego Três irmãos era a divisa de Penápolis com o distrito de paz de Itapura.

As divisas de Penápolis estabelecidos na lei que criou o município, em 1913, compreendiam todas as terras que ficavam à margem esquerda do Rio Tietê, até sua foz no Rio Paraná assim determinados: A linha de divisa desce do Rio Tietê, próximo a atual cidade de Promissão, até o espigão entre o Rio do Peixe e o Rio Aguapeí (ou Feio), seguindo deste espigão até o Rio Paraná; do Rio Paraná, sobe até a foz do Rio Tietê, e deste ponto sobe o Rio Tietê até o ponto que iniciou a divisa.

Este território compreendia, portanto, a Alta Paulista e a região da Noroeste do Brasil. Este território, porém, foi muito reduzido com os seus sucessivos desmembramentos, a partir de 1921, em novos municípios. Foram desmembrados de Penápolis, os seguintes municípios: Araçatuba e Birigui em 1921, Promissão em 1923, Avanhandava e Glicério em 1925 e Alto Alegre em 1953.

Em 3 de agosto de 1926, data da Lei estadual 2.129 que fixou as divisas de Penápolis, o seu território já estava bastante reduzido, mas ainda se estendia até perto da atual Marília.

Até 1937, a comarca de Penápolis se estendia até Quintana e Tupã (que pertenceram a Glicério), na região da Alta Paulista.

 A Igreja Católica e os Capuchinhos

O município pertence à Diocese de Lins e seu padroeiro é São Francisco de Assis, sendo a Igreja Matriz de Penápolis servida, desde sua criação, pelos frades capuchinhos, os primeiros vindos da região de Trento na Itália.

Criada a paróquia em 1909 com o nome de “Curato do Santa Cruz do Avanhandava” , na época pertencente à Arquidiocese de Botucatu. Paróquia grande que foi desmembrada inúmeras vezes. O primeiro vigário da paróquia foi Frei Boaventura de Aldeno. Atualmente se denomina Paróquia de São Francisco de Assis pertencente à Diocese de Lins.

É considerada a fundação de Penápolis, a realização de uma primeira missa, em 25 de outubro de 1908, pelos frades capuchinhos da Igreja Católica, os quais, assim que chegaram a Penápolis fundaram uma Escola, a Escolinha de São Francisco, que foi a única da cidade até 1912, quando se instalou a primeira escola feminina e a primeira masculina, e em seguida em 1913, quando se inaugurou a Escola Mixta Municipal do Lageado. Pouco depois, a Escolinha se transformou em Colégio São Francisco.

 Penápolis de antigamente

O penapolense, vivendo o Centenário de sua cidade em 2008, não esquece as histórias de pioneiros. Muitos deles chegando de carro de boi de Uberaba, famílias inteiras buscando vida nova, com récem-casados e mães com crianças no colo (uma delas foi o futuro frei José Vaz de Melo, no colo de sua mãe Dona Bia), em viagens que duravam um mês.

Muitos recém chegados ficavam semanas na Pensão do Sr. Ventura ou em barracas no ‘Acampamento dos Pioneiros’ até se construir uma casinha no sítio, recém comprado, que ainda era puro mato. O Domingos Ventura depois se estabeleceu em Birigui.

Penápolis que já foi uma estação de trem e uma venda. As enormes perobeiras à beira dos ribeirões. A minúscula Companhia Paulista de Força e Luz do Avanhandava da década de 1920.

O sr. Tarcísio das Neves, da Livraria Católica, relembrando o seu pai, um pioneiro, carreteiro, que “puxava” sal e gêneros alimentícios em carro-de-boi entre Penápolis e Franca. Os pioneiros, recebendo em 1958, com muito orgulho, no Cinqüentenário de Penápolis, o título de cidadão honorário penapolense.

Penápolis não esquece a antiga Estação de Trem, o antigo Campo da Aviação, na vila Fátima, com seus “teco-tecos”, os “CAP-4 Paulistinha“, paraquedistas, a Esquadrilha da Fumaça com seus gloriosos aviões T-6, o saudoso Correio Aéreo Nacional com sua linha até o Paraguai. O Clube de Planadores de Penápolis. O Syndicato Condor decolando seus aviões Junkers alemães para o Mato Grosso.

Os passeios no Salto do Avanhandava que, nas palavras da Carmita Ahmad, o salto: “Serpenteia em meneios coleantes, em alvéo de pedras, rumoreja a caudal de espumas borbulhantes do Tietê em fina benfazeja”.. Os banhos e as pescarias no Ribeirão do Lageado. O Porto do Cruz e a Estrada velha do Lageado.

A dureza da política dos anos 1920 e o assassinato do Luís Osório da Fonseca. O dentista Domingos Vieira da Silva que atirou no tribunal do júri em 11 de fevereiro de 1930 matando um jurado, o português Manoel Pereira, ferindo outras três pessoas e sendo notícia no New York Times.

O assassinato do delegado Álvaro Martins Sevilha, em 1936, e a famosa pensão da viúva dona Astrogilda, dada pelo governo do estado. O cérebre Tenente Galinha, João Antônio de Oliveira, caçador de criminosos no sertão da Noroeste.

O crime mais bárbaro da história da região da noroeste, depois da pacificação do índios, ocorreu, em Penápolis, em 31 de março de 1926, quando foram decaptados por golpes de machado, a imigrante Fiyosi Kadotá e seus 4 filhos menores.

As ruas descalças e pacatas com apenas 30 automóveis em 1925, que já eram 350 em 1950.

Waldyr Ruffato Pereira e Irmã Anna de Mattos Castilho lutando, na década de 1970, para a reabertura do Colégio Educandário Coração de Maria.

A antiga Escola Mixta Municipal do Lageado do Professor Altino Araújo Vaz de Mello, fundada em 1913. As crianças recebendo o diploma do 1º Grupo Escolar. A primeira Escola Feminina Estadual de Penápolis da Professora Ismênia Aymbiré do Amaral Rocha, em 1912, época em que muitos professores se recusavam a irem para Penápolis por medo dos índios. Ela que foi a primeira professora diplomada de Penápolis.

A Carmita de Mello Ahmad, filha do Professor Altino, lendo todos os livros que apareciam na cidade e escrevendo suas poesias sobre Penápolis e sobre São Francisco de Assis e editando o jornal feminino “O Jasmim“. A Pepita Rodrigues, de porta em porta, vendendo tomate.

Os comícios do Doutor Adhemar Pereira de Barros em frente ao Mercado Municipal: -“Penapolenses de Penápolis“!, assim começava o velho Adhemar os seus discursos. Estadista Adhemar que, junto com o Lucas Nogueira Garcez, construiu a velha e saudosa Usina Hidrelétrica de Avanhandava e construiu as duas principais rodovias que cortam Penápolis: a SP-300 e a SP-425.

Em 1919, a grande festa na cidade, recebendo os mais importantes políticos da capital paulista que vieram fundar a Santa Casa de Misericórdia de Penápolis e instalar as Escolas Reunidas, que depois se tornariam o “1º Grupo Escolar de Penápolis”.

A dureza de se atravessar, a vau, com carroças e cavalos, o rio Tietê, feito este que só se conseguia em um único ponto mais estreito do rio, e após 1907, de balsa. A tão sonhada ponte do Tietê, ligando Penápolis a São José do Rio Preto, teve autorizada sua construção no tempo do saudoso governador Doutor Washington Luís, na década de 1920, e foi inaugurada em 1928, quando o governador Júlio Prestes visitou a região.

A Cora Coralina vendendo mudas de árvores para a cidade toda e sua Casa de Retalhos. Em uma época em que era raro ver uma mulher comerciante, Cora Coralina lutava, nas ruas e no jornalO Pennapolense” do professor Altino, pela instalação de uma Associação Comercial na cidade. Grande Professor Altino!, cuja família também foi pioneira na educação e no jornalismo em Uberaba no século XIX. O Pennapolense circulou de 1915 a 1939.

O Dr. Mário Sabino, político e médico, atendendo pobres e ricos com carinho. O lendário Quinca Monteiro com seu chapéu de aba larga e sua coleção de fazendas. As elegantes alunas voltando do Instituto de Educação com seus uniformes de camisa branca e saia azul-marinho com pregas.

O Luís Leme orgulhoso de seu antepassado Fernão Dias mas sempre reclamando que tiraram o “Leme” do Fernão Dias Pais Leme, e mostrando a todos, com orgulho, a espada ganhada pelo seu avô, do D. Pedro II, nos velhos tempos da Colônia Militar.

Penápolis teve uma das primeiras mulheres vereadoras do Brasil, logo depois de instituído o voto femimino em 1932, a vereadora Iracema Aymbiré de Camargo, eleita em 1936 pelo PRP.

A primeira casa de Penápolis, próxima a antiga estação de trem, casa toda de madeira, doada, pelo Coronel Manoel Bento da Cruz, aos frades Capuchinhos, da qual, uma antiga moradora, a poetiza Carmita Ahmad dizia:

“Casinha velha.. Você relembra A história de nosso passado Que não será esquecido e foi glorificado… Nos tempos primordiais, Seu teto abrigou nossos ancestrais… Você foi templo, escola e residência… A tradição sua forma conservou… É símbolo e foi berço. Onde originou a nossa civilização“.

Carmita Ahmad

O apito da locomotiva Baldwin Maria Fumaça. Os trens lotados de imigrantes rumando para sabe-se lá onde. O homem do trem, percorrendo os vagões da velha Noroeste do Brasil, gritando: -“Olha o sanduíche!, quem vai querer?!. E as longas viagens para São Paulo de 13 horas e meia de duração.

Estrada de Ferro Noroeste com seus vagões com muita poeira pois os seus trilhos foram colocados diretamente no solo, sem um suporte de pedras. O empedramento da linha férrea da Estrada de Ferro Noroeste foi feita somente em 1937.

As jardineiras (ônibus de antigamente), vagarosas e empoeiradas, chegando de São José do Rio Preto das empresas Bandeirante e Romero. As cinco saudosas empresas de ônibus de Penápolis: Martins, Garcia, Álvares, Pinheiro e Tonello.

O velho cemitério do tempo dos índios, atualmente abandonado, onde estão enterrados, em uma vala comum, os 11 pioneiros mortos, em 1886, pelos índios coroados e onde os penapolenses homenageavam os pioneiros.

Os pracinhas da FEB. A sósia de Elis Regina, Marilda Castilho. O “Cidade contra Cidade” e a “Miss Penápolis” no programa Sílvio Santos. Os bons tempos do time de futebol da cidade o “CAP“. O jornal semanal “Comarca de Penápolis” do Sr. Raul Forchero Casasco, que circulou por 40 anos (19371977).

O fazendeiro “tenente” Jerônimo Lopes Carriço, que doou, em 1928, o terreno onde foi foi construído o estádio municipal de Penápolis, o qual leva seu nome.

O tenente Carriço foi sogro do grande médico Dr. Renè Adolfo Fink, que de 1938 até 1960, contribuiu, com sua perícia médica adiquirida na então Faculdade de Medicina de São Paulo, com mais da metade dos partos realizados na cidade.

O Antônio Veronese doando o terreno, na década de 1950, para a construção da Casa Anjo da Guarda e lutando muito para a sua instalação. Em 1968, concretizado o sonho, o presidente Costa e Silva declara de utilidade pública a Associação Penapolense de Proteção à Infância “Anjo da Guarda”.

As 50 charretes de aluguel (táxi) e os amáveis charreteiros em frente à antiga Estação rodoviária, sendo que em 2005 restavam apenas duas charretes. A Maria 21 e seu papagaio. A Dona Maria Chica. A despedida concorrida e emocionada do Manoel Bento da Cruz. O leiteiro da carrocinha, deixando leite de casa em casa. O primeiro arranha-céu: O Edifício Adilha, sinal de progresso. A trágica morte, em 1968, do Dr. Ramalho Franco, de acidente.

Penápolis não esquece as disputas eleitorais entre o Nagib Sabino e o Edison João Geraissate. O prefeito Joaquim Veiga de Araújo, homem simples que construiu a praça Dr. Carlos Sampaio Filho, com suas próprias economias.

O caminhoneiro “Zé Preto” narrando as dificuldades e proezas das viagens de caminhão, na década de 1950, para o “Norte” (hoje se diz nordeste do Brasil). A Orquestra Penapolense na década de 1950 tocando no Clube Penapolense.

As visitas do Bispo de Lins que reuniam multidões. As irmãs e irmãos do Apostolado da Oração, primeira irmandade de Penápolis, criada em 1909, e da Venerável Ordem Terceira Franciscana Secular.

O Frei Thiago de Cavênide, rigoroso seguidor das normas de pobreza e sempre ao lado dos jovens, teólogo e mestre, e os capuchinhos de Trento.

Os frades pioneiros: Frei Bernardino de Lavalle que celebrou a primeira missa na fundação de Penápolis. Frei Boaventura de Aldeno, Frei Sigismundo de Canazei e o Frei José de Cassana com sua Escolinha São Francisco, escola pioneira, toda de madeira, na primeira casa de Penápolis. Frei Domingos de Riesi que dirigiu a construção da primeira igreja, do convento e da nova escola, já em 1909, e que seria inaugurada em 1913.

As festas do padroeiro São Francisco de Assis no Largo da Matriz. O engenho de açúcar artesanal. Os carros de boi levando toras de madeira para as serrarias e as carroças puxadas por burros levando café para a velha Estação de trem (que funcionou até1917) da velha Estrada de Ferro de Bahurú a Itapura.

Coisas e pessoas que fizeram de Penápolis um lugar muito amado e inesquecível.

Filhos e moradores ilustres

São filhos de Penápolis: 

– O Bispo da Igreja Armênia de São Paulo, Dom Vartan Waldir Boghossian; Walter Bernardes Nory, secretário de transportes do Governo Orestes Quércia; O cantor, compositor e arranjador Iso Fischer e seu irmão Tato Fischer (Carlos Eduardo Fischer Abramides) que é ator e diretor teatral; O Dr. Renè Adolfo Fink, grande médico de nossa cidade, até hoje lembrado por seus pacientes.

– O pintor com a boca e os pés Jadir Raymundo; A escultora Marly Salum; O compositor e cantor Francisco Gottardi (o Sulino), da dupla caipira “Sulino & Marrueiro”; O desenhista e ilustrador Rogério Vilela; A jogadora de basquetebol Suzete Gobbi, capitão da seleção brasileira feminina de basquete de 1973 a 1986. A família materna da atriz Giulia Gam é de Penápolis, onde Giulia é cidadã honorária. O pianista Silvano Reis. O músico Chiquinho Costa. A poetiza Rosemeire Soares de Sales e o poeta Albertinho Sertanejo.

– O sociólogo Luiz Eduardo Waldemarin Wanderley; A apresentadora e modelo Sabrina Sato Rahal, eleita a segunda mulher mais sexy do mundo pela revista vip em 2008; o modelo Bruno Ortiz que já fez parte de grandes agências internacionais como a Ford Models e a Major Agency; A jogadora de vôlei Jaqueline Bachiega Sipriano da Silva que tem grande destaque no vôlei nacional; O artista plástico José Maurício de Almeida (o Caxeta); O grafiteiro Edvaldo Luiz Alvares – (O Vado do Cachimbo). O nadador Thiago Teixeira Simon, campeão brasileiro dos 100 e 200 metros nado de costas na categoria júnior.

– O Euclides Marques, da dupla de Choro “Euclides e Luizinho 7 Cordas”. Nasceu em Penápolis em a 11 de dezembro de 1959, a escritora, contista e poetisa Vera Vilela, e o Deputado Federal por São Paulo, Marcelo Ortiz. O Sérgio Peli, armeiro, restaurador e desenhista de armas. O Fernando Chamarelli, artista plástico e ilustrador. Luiz Eduardo Cheida, deputado estadual no Paraná e que foi secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado do Paraná. O ator Rafael Fier.

– O professor e diretor de escolas, Isanoel Martins Rodrigues, como: “EE. Dr. Carlos Sampaio Filho”; “EE. Adelino Peters” e entre outras mais da região. Após lecionar ocupou o cargo de Delegado de Ensino. O maestro Sílvio Augusto Bugiga. A decana do professorado paulista, Dirce Pereira da Silva, que, em 2003, foi homenageada pelo Governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, como a professora que mais tempo permaneceu em sala de aula em toda a rede pública de ensino do Estado, de 1954 a 2004.

A atriz Pepita Rodrigues, espanhola, veio, na infância, para Penápolis. A poetisa Cora Coralina viveu vários anos em Penápolis. O Bispo aposentado da Diocese de Duque de Caxias e ex- coordenador do Programa Fome Zero, Dom Mauro Morelli, natural de Avanhandava, também morou em Penápolis. O jurista José Frederico Marques foi juiz substituto em Penápolis em 1938. A poetisa e historiadora Carmita de Mello Ahmad foi uma das pioneiras de Penápolis tendo residido na primeira casa de Penápolis. Atua em Penápolis um dos mais antigos advogados do Brasil, com quase 100 anos, Nello Salen, natural de Franca.

Não podemos nos esquecer também do admirável “Pé de Mola”; Antônio Rodrigues de Souza, o “B-12”, que, inclusive, foi candidato a vereador; Pio Gomes em suas “aparições” na Rádio Ativa FM, o “Caju” e a Velhinha da geléia, uma senhora já de avançada idade, magrinha, corpo franzino, empurrando seu carrinho de doces (-“Vai querer geléia? Hoje ela ‘tá com mais leite…”). Quando alguém perguntava se ela vendia fiado, fingia não ter ouvido e deixava o ambiente.

CAIPIRA! O QUE É ISSO? O caipira tal como ele é. Texto antológico de Cornélio Pires.

09/09/2007

CAI – PIRA = CORTADOR DE MATO

EXTRAÍDO DO LIVRO DE CORNÉLIO PIRES: CONVERSAS AO PÉ DO FOGO.

Tipo humano paulista do CAIPIRA e sua cultura tiveram sua origem no contato dos imigrantes brancos portugueses: os bandeirantes, com os nativos índios (ou gentios da terra, ou bugres) e com os pretos africanos escravos.

Assim, há vários tipos de CAIPIRA,  segundo sua raça, cada uma deles com suas peculiaridades:

1- o CAIPIRA CABOCLO: – descendente de índios catequizados pelos jesuítas. Nele é que surgiu a inspiração para o personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, e para a criação do Dia do Caboclo, comemorado em 24 de junho, dia de São João.

2- o CAIPIRA PRETO (hoje se diz NEGRO ou afrodescendente): – descendente de escravos. Foi imortalizado pelas figuras folclóricas da Mãe-preta e do preto-velho.

3- o CAIPIRA BRANCO; – descendente dos bandeirantes: as famílias pioneiras em São Paulo de Piratininga, uma nobreza decaída, mas é, ainda, proprietário de pequenos lotes de terras rurais: os chamados sítios.

4- CAIPIRA MULATO – descendente de africanos com europeus. Raramente são proprietários. Cornélio Pires os tem como patriotas e altivos.

Cornélio Pires informa, em Conversas ao Pé do Fogo”, onde descreve a vida do caipira, que o caipira cafuso é raro no estado de São Paulo.

Texto do folclorista CORNÉLIO PIRES

Movendo e estudando tipos de “caipiras” nesta obra, especialmente caipiras paulistas, ao classificá-lo, não faço referências ao “cafuz (2) e ao “caboré (3), raros neste Estado.

O nosso caipira tem sido uma vítima de alguns escritores patrícios, que não vacilam em deprimir o menos poderoso dos homens para aproveitar figuras interessantes e frases infelizes como jogo de palavras.

“Caipiras”… Mas que são os caipiras?

São os filhos das nossas brenhas, de nossos campos, de nossas montanhas e dos ubérrimos vales de nossos piscosos, caudalosos, encaichoeirados e inumeráveis rios, “acostelados” de milhares de ribeirões e riachos.

É fato: o caipira puxador de enxada, com a maior facilidade se transforma em carpinteiro, ferreiro, adomador, tecedor de taquares e guembê, ou construtor de pontes. Basta-lhe uma só” explicação bem clara; ele responderá:

“Se os ôtro fáiz… proque não hi de fazê!… Não agaranto munto, mais vô exprementá”.

Os caipiras não são vadios: ótimos trabalhadores, têm crises de desânimo quando não trabalham em suas terras e são forçados a trabalhar como camaradas, a jornal. Nesse caso o caipira é, quase sempre, uma vítima.

O trabalhador estrangeiro (4) tem suas cadernetas, seus contratos de trabalho, a defesa do “Patronato Agrícola” e seus cônsules… Trabalha e recebe dinheiro.

Ao nacional, com raras exceções o patrão paga mal e em vales com valor em determinadas casas, onde os preços são absurdos e os pesos arrobalhados; nesse caso o caipira não tem direito a reclamações nem pechinches, está comprando fiado… com o seu dinheiro, o fruto do seu suor, transformado em pedaço de caderneta velha rabiscada a lápis.

E querem que o brasileiro tenha mais ânimo!

Ânimo não lhe falta, quando trabalha em suas próprias terras. As suas algibeiras e o seu crédito nas lojas e vendas o confirmam.

Deixem os fazendeiros de explorar o nacional, pagando-lhe em moeda corrente; que ele veja e sinta o dinheiro, o seu dinheiro, fruto do seu labor, e ele será outro.

Dócil e amoroso é todo camponês; sincero e afetivo é o caipira.

Não cuido aqui do caipira da cidade (5) Esse sabe ler, é bom, é fino, e só lhe falta o traquejo das viagens, o desenleio e o desembaraço adquiridos no contínuo contato com as populações dos grandes centros.

Esse é menos desconfiado que o do sítio, mas revela grande timidez num meio grande e estranho, imaginando que todo mundo o observa, chasqueando-os, trocando-lhe o andar e o jeito.

Da cidade ou do sítio o caipira é sempre prejudicado pelo seu excesso de modéstia. É que em nossa terra, trancada de magníficas inteligências, parece que toda a gente é obrigada a ter talento! Daí o pouco caso a que são votados homens que brilhariam em outras terras.

A música e o canto roceiros são tristes, chorados em falsete; são um caldeamento da tristeza do africano escravizado, num martírio contínuo do português exilado e sentimental, do bugre perseguido e cativo.

O canto caipira comove, despertando impressões de senzalas e tapéras. Em compensação, as danças são alegres e os versos quase sempre jocosos.

I – O CAIPIRA BRANCO

Neste caso, branco quer dizer de melhor estirpe, meia mescla, descendentes de estrangeiros brancos… gente que possa destrinçar a genealogia da família até o trisavô, confirmando pelo procedimento o nome e a boa fama dos seus genitores e progenitores. Podem ser alvos, morenos ou trigueiros… são brancos.

Descendem geralmente dos primeiros povoadores, fidalgos ou nobres decaídos de suas pompas, ou de brancos europeus atraídos para a nossa terra pela árvore das patacas e que, nos sertões de então, fecundos latinos, deixaram a sua descendência.

A média de filhos do caipira branco é de 8, e ele consegue criá-los.

São esses os caipiras reclamadores de escolas. Seus filhos, engarupados no pangaré, freqüentam aulas na cidade a uma e meia léguas de distância, quando não há escola no bairro.

Por mais pobres que sejam, com seus cobrinhos, suas terras, porque eles são sempre proprietários, podem andar remendados, mas andam limpos. Usam chinelos de liga ou cara de gato, sapatões de vaqueta branca-amarelada ou botinas de elástico, pés não muito grandes, porém altos; barba abundante e os lóbulos da orelha gordos e destacados das faces.

Não dispensam o paletó, não usam colete, não passam sem um lenço amarrado no pescoço; chapéu de pano, calça de riscado, e uma boa cinta de couro curtido, couro de sapateiro, como dizem eles.

As mulheres são asseadas e amorosas, fugindo às cores berrantes tão apreciados pelos caipiras caboclos. Excessivamente pudicas, suas filhas aos sete para oito anos já usam saias compridas…

Seus penteados prediletos são o pericote na nuca ou no alto da cabeça; a trança longa e cheia, ou duas tranças pendentes, usando também, quando pouco cabeludas, trancinhas em rodilha.

Os caipiras brancos, mesmo quando pobres, são respeitados pelo caboclo pobre ou rico e pelos pretos.

Se os filhos são analfabetos, em compensação são gentis e bem educados.

Pouco dados à cachaça, são sóbrios e alegres, comedidos nos gestos, compassivos, bonachões e pacientes.

As suas casas, apesar de ser de barro e telha vã, são asseadas, bem varridas, ostentando nas linhas enxadas envernizadas pelo uso, ficando atrás da porta os machados e foices.

Nas estanqueiras não faltam a espingarda, a patrona de couro de jaguatirica o laço, o cabresto, o bornal, o freio, o serigote ou socado, o corote, o samburá e um pala.

Não são velhacos, nem carvoteiros, nem gaúchos: têm sempre de seu. Rascam regularmente nas violas de doze cordas, com seus canotilhos, toeiras e turina.

Riem abertamente. Têm o falar sossegado e bondoso, de tudo se admirando, a mostrar interesse pela conversa mais insossa e secante, só para serem delicados.

Não dispensam a sua cachorrada paqueira e veadeira, com que fazem seu desporto aos domingos ou dias de guarda. Amam os seus cães, que não cedem por dinheiro nenhum. Põe-lhes nomes originais: Bismarque – Sultão – Paxá – Baliza – Clarim – Palhaço – Fidalgo – Sem Nome – Que Importa – Espicula – Marengo – Piloto – Colibri – Corsário – Não Sei…

Como patrões, são verdadeiros amigos e companheiros de eito dos camaradas. Sabem adoçar a voz e a ordem com um sorriso.

Têm, quase sempre, em casa, um compartimento assoalhado para os hóspedes, pois são os mais hospitaleiros dos homens.

Quando moradores dos campos, suas casas ficam dentro de um mangueirão, com suas figueiras e coqueiros, pés de pinhão-paraguai, cochos em forquilhas, chiqueirão de um lado, paiol, uma horta–jardim e um modesto pomar.

Os ribeirinhos armam suas casas barreadas, rebocada e caiada no tope de uma ribanceira, num refego de vale ou no alto de uma poética barranca de rio.

São João e Santo Antônio são os seus santos prediletos e em todos os sítios se ostentam no mesmo mastro, costas com costas no mesmo caixilho, mastro pintado em gomos azuis e rosas.

Pelas cercas de pau-a-pique, pendentes e verdes, as “buchas”, as abobreiras e os croás cheirosos. Junto á porta, as pedras de afiar e de acentar o fio. No quintal as laranjeiras: lima, tangerina, tangerona, ananás, mexeriqueiras, azeda cascuda, seleta, limão doce, lima umbiguda, lima da Pérsia, cidreiras, jambeiros, além do abençoado pé de limão galego, que floresce toda a vida, o ano inteiro, até morrer. É o salvador dos doentes.

De lado fica a horta, misto de campo e de conservação de plantas medicinais. Ali estão em confusão o cravo de defunto, o coentro, a erva-cidreira, o cravo-chita, e outros cravos, a hortelã. O cravo é a flor predileta do caipira, figurando sempre na sua poesia.

II – O CAIPIRA CABOCLO (6)

Caipiras caboclos são os descendentes diretos dos bugres catequizados pelos primeiros povoadores do sertão. Se o caipira branco diz: “eu sou da família Amaral (7), Arruda, Pires, Ferraz, Almeida, Vaz, Barros, Lopes de Souza, Botelho, Toledo”, ou outra, dizem os caboclos: “eu sou da raça” de tal gente…

Estes caipiras quase nunca têm os lóbulos das orelhas, ou estes são completamente pegados.

Inteligentes e preguiçosos, velhacos e mantosos, barganhadores como ciganos, desleixados, sujos e esmulambados, dão tudo por um encosto de mumbava ou de capanga; são valentes, brigadores e ladrões de cavalos…

São uns poáias quando dão para pilintras, e então, deixam a preguiça de lado e a vaidade presta o seu serviço, tornando-os trabalhadores. Neste caso, o chá é mandar chumbar um dente a ouro e pôr uma coroa na frente.

Freqüentam os arredores das cidades. São valentes e ágeis, ligeiros como lambaris, arreganhando as magníficas e alvas dentaduras fazem um banzé-de-cuia (8) de uma hora para outra por causa de uma catirina, pois são mulhereiros e dados a galantes, com o seu andar gingado, bamboleante e gamenho. Estes “almofadinhas” caboclos, são raros, mas existem por todo o interior do Estado.

Geralmente os caipiras caboclos são madraços. Arranjando um cantinho no sítio do branco, ou numa fazenda, lá ficam munbaveando, tolerados pelos patrões… aos quais não prestam serviço.

Sua vida é caçar (com aviamentos arranjados aqui e ali à custa de pedinchices), pescar, dormir, fumar, beber pinga e tocar viola, enquanto a mulher, guedelhuda e imunda, vai pelos vizinhos, pidonha e descarada, filar dos bons trabalhadores o feijão, o toicinho, o açucre, o café, a farinha e… um manojo de couve.

Os vizinhos dos caboclos só matam porco a tiro e sangram depois de morto, pois se o animal grita sob a faca esse é o dia das visitas…

Quando são muito trabalhadores, os caboclos se satisfazem com qualquer coisa: uns pé de couve, uma rocinha de mandioca, três pés de cebola de cheiro, batatas, abóboras e … a serralha dá por si…

São marotos. Criam os filhos ao Deus-dará.

O traje do caboclo é repelente. Sua casa é imunda, de paredes esburacadas, coberta de sapé velhíssimo e podre, afogada pelos vegetais daninhos que lhe invadem o terreiro e vêm até a porta do quintal, trepando a “unha-de-gato” pelas paredes até a cumieira, de sociedade com o melão de S. Caetano.

A miséria envolve-lhe o lar. Cadelas magras e sarnentas a se coçar ao sol, cheias de bernes, completam o quadro, pois aqui nem o gato do caipira se encontra: tal casa não comporta ratos; se não há o que roer…

O caboclo…

Ei-lo de cocre à margem suja do ribeirão (não tem coragem de passar uma foice no pesqueiro) com sua vara-de-anzol quebrada e encanada com embira… O bambuzal fica perto, mas o caboclo não tem tempo para ir cortar uma vara nova.

Descalço, pés chatos, e esparramados, dedos cabeçudos, longos, em garra, fincados no chão: uma das pernas da calça arregaçada, outra a tombar; botões mal tapados pela vista da calça; uma cinta de correia de couro cru, estreita, de fivela esconsa; metade das fraudas para fora das calças vendendo farinha.

Pela aberta da camisa, na ilhaga, de quando em vez, enfia a mão de unhas curvas, longas e sujas e se coça pela costela num gozo infindo… A camisa aberta ao peito, sem botão, deixa ver os rosários de contas de capim, os bentinhos, um dente de porco ou de jacaré, e um patuá, que é um saquinho fechado de pano encebado, brilhante de sujice e de suor. Esse saquinho, envolve uma oração e uma pedra do Bom Jesus de Pirapora.

A oração serve para fechar o corpo contra balas e as coisa-feito. A tiracolo tem o caboclo um saquitel com fumo, palha, isqueiro de taquara com tampo de cuia, pedra de fogo e um pedaço de lima à guisa de fuzil.

Além de sujo, é roto. A mulher não lhe remenda a roupa e ele deixa ficar. A sua cabeleira emaranhada parece uma touceira de capim barba-de-bode, um enxu (9) ou ninho de corruíra d’água ; quando vem do mato traz a cabelama cheias de ciscos e pauzinhos secos. O seu chapéu de palha de piaçaba, afunilado, que já foi branco, hoje está envernizado, com uma cor indefinível, brilha e fede. Tem as abas caídas e comidas de barata.

Pobre caboclo… Creio que nunca tomou banho…

Coitado do meu patrício! Apesar dos governos os outros caipiras se vão endireitando à custa do próprio esforço, ignorantes de noções de higiene… Só ele, o caboclo, ficou mumbava, sujo e ruim! Ele não tem culpa… Ele nada sabe.

Mas, graças a Deus parece que esse tipo vai desaparecer.

Foi um desses indivíduos que Monteiro Lobato estudou, criando o Jeca Tatu, erradamente dado como representante do caipira em geral.

Ainda não estão perdidos os caipiras caboclos. Para salvá-los bastam duas coisas tomadas a sério: a escola e a obrigatoriedade do ensino… mas de verdade.

III- O CAIPIRA PRETO (10) 

Caipiras pretos são os descendentes dos africanos já desaparecidos do Brasil.

São os bons brasileiros vítimas ainda das últimas influências da escravidão.

Almas caridosas e pacientes, generosas e humildes são os “pretos velhos”.

Vede-os ali, “conversando ao pé-do-fogo”, ou sentados numa pedra, no terreiro, ou na soleira de uma porta se aquecendo ao sol… Também estão rotos e esfarrapados… Pobres depois de terem, com seu suor, inundado as fazendas de brasileiros patrícios seus – de canaviais, algodoais e cafezais, enchendo-os de dinheiro, desse ouro abundante e bom!

Que é o preto velho?

Um farrapo de gente… é um bagaço da vida. É um hospital de doenças. Tem os pés inchados e rachados pelas frieiras, pelos espinhos, pela erisipela, pela elefantíase… O seu peito ronca e ringe cheio de asma!

E ele, o pobre preto velho, nos sorri, contando histórias de outros tempos, humilde, cabisbaixo, sem gestos, ou só gesticulando de quando em quando, tentando estender a mão “engruvinhada”, de dedos encroados, entravada pelo reumatismo, mão com que tenta mostrar o porte de uma criança ou apontar o quartel de cana ou o talhão de “café-velho”, para além, muito além onde ele conheceu a mata-virgem e ouviu o estrondar dos jequitibás nas derribadas; onde ele viu erguer-se a lavoura nova do “sinhô” e onde amou a sua “crioula”…

Essa crioula hoje é a “preta-velha”, a mãe-preta” a “mamã” que tem qualquer coisa de Santa naqueles olhos bondosos, naqueles cabelos tão brancos! Ela é a miséria aliada à bondade; é a tristeza e o caminho; é o amor e a boa conselheira dos filhos daqueles que a torturaram explorando-lhe o trabalho.

Pobres pretos velhos! Nas grandes cidades, disputam aos cães, pela madrugada os restos das latas de lixo! Não podem pedir esmolas, eles, que só viveram para o trabalho… Não podem: a polícia não deixa: – são nacionais…

Felizmente os filhos dos “pretos-velhos” reagiram! São hoje o melhor braço da nossa lavoura e dos serviços de “estiva” no litoral.

Vejamos o “caipira-preto” novo.

Sua casa é quase sempre limpa; é coberta de sapé, mas é cercado de lavoura: tem sua plantação de cana, um pouco de café, e cereais: tem um “punhado” de santos no terreiro, em mastros: S. João, Santo Antônio, São Benedito. Ele é religioso e pena é que a aguardente, a “cachaça” o arraste para a tuberculose. A sua engenhoca, é tocada a pulso; ele é forte.

Um cachorro “jaguapoca”, pouco maior que um “jaguapeva” ronda sempre as capoeiras, assombrando tatus e defendendo as galinhas, dos “bichos do mato”.

Tem a sua horta e as suas frutas. Respira-se um grande bem-estar no seu “sitiéco”.

É trabalhador e não se deixa pisar pelos brancos – que muito estima e respeita – mas, por “qualquer-cousa” responde logo: – “Sinhô me descurpe… mais tempo de escravo já cabô!”

Aos domingos, chibante e limpo, aparece na cidade com as pretas pimponas e risonhas, mostrando lindas e magníficas dentaduras alvas num riso franco e feliz.

E as pretas garbosas e nadegudas como “içás” passeiam suas saias de chita, engomadas, sob paletós brancos de babados e golas enfeitadas de renda e entremeios vermelhos ou azuis, fazendo visitas e comprando “quitandas” nos tabuleiros à porta da igreja matriz.

Se os caipiras brancos são patriotas, os pretos suplantam-nos com grande vantagem. Sentem-se orgulhosos do nome do Brasil. Quantas páginas brilhantes foram escritas na nossa história pelo brasileiro-preto!

O novo caipira-preto é cavalheiresco e gentil. Em contato com o italiano, tendo, em compensação a estranha simpatia da italiana.

É batuqueiro, sambador, e “bate” dez léguas a pé para cantar um desafio num fandango ou “chacuaiá” o corpo num baile da roça.

IV – O CAIPIRA MULATO

Oriundos do cruzamento de africanos ou brasileiros pretos com portugueses, e brasileiros brancos, raramente com o caboclo, o caipira-mulato é o mais vigoroso, altivo, o mais independente e o mais patriota dos brasileiros. Ele é bem o brasileiro que sabe amar o Brasil acima da própria família.

Lutando contra a prevenção do branco e fugindo, repelindo o preto, ficou numa situação especial e por isso procura sempre e sempre se elevar e se distinguir pelas suas ações.

Quando dá para pachola e falante… deixemo-lo.

Excessivamente cortês e galanteador para com as senhoras, nunca é humilde ante o patrão. Grande apreciador de sambas e bailes, não se mistura com o preto, tratando-o com certa superioridade, mas com carinho.

As suas mães, pretas, tratam-no com tanto mimo, com tanto carinho, por serem claros, que eles se tornam um tanto desprezadores de seus genitores maternos.

Nem sempre são proprietários.

Fiéis, são os bons-empregados, os bons boleeiros, os bons copeiros, os bons camaradas, os ótimos fatotum dos ricos… enquanto não forem tratados com desprezo.

Aparece agora no nosso Estado um novo tipo de caipira mulato, robusto e talentoso, destacando-se nos grandes centros, tratável e simpático: é o mestiço do italiano com a mulata ou do preto tão estimado por algumas italianas ( 11).

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NOTAS de Notas de Orlando Batista dos Santos:

1- Trechos do livro “Conversas ao ‘Pé-do-Fogo” reeditado pela OTTONI Editora em 2002. A primeira edição desta obra deu-se em 1921.

2- Cafuz é resultado do cruzamento do negro com o índio, o cafuzo.

3- Caboré, salvo outras eventuais significações, refere-se ao nordestino. O termo remete à figura de um tipo de coruja de cabeça chata. Daí a expressão pejorativa e discriminatória de “cabeça-chata”, referente ao nordestino.

4- Aqui, “estrangeiros” refere-se aos colonos imigrantes vindos de vários países para o Brasil, principalmente no final do século XIX e início do século XX. Cornélio Pires revela a discriminação entre os trabalhadores nacionais e os estrangeiros.

5- Diferentemente do conceito de que “caipira” é necessariamente o homem do campo, Cornélio Pires faz referências ao “caipira da cidade”. Já Antônio Cândido em “Os Parceiros do Rio Bonito” diz que seu estudo limitava-se apenas ao “caipira paulista”, cabendo aqui então uma indagação: caipira é um estado da alma, um estilo de vida, uma estética peculiar, uma cultura?

6- Não estranhem os leitores a forma contundente com que o caboclo é apresentado aqui. A expressão “caboclo” como conhecida de forma tão romântica nos dias de hoje, esconde uma origem bem diferente. Cornélio Pires deixa bem claro que a esta categoria de caipira pertence os descendentes de indígenas. Pouco dados ao trabalho, pelo menos ao estruturado pela lógica da acumulação de bens e capital, os caboclos, como seus ancestrais preocupavam-se tão somente com a caça, pesca e coleta, indicando a forte presença cultural dos nossos indígenas. Perambulando pelas fazendas, e depois pelas cidades, lá se vai o caboclo carregando apenas as reminiscência de sua cultura original. Cornélio Pires analisa-os pela ótica do “civilizado”, assim como Monteiro Lobato faz com seu Jeca Tatu, personagem caipira que representa justamente este “caboclo” avesso à correria e desligado dos problemas da “civilização”.

7- A título de curiosidade, segundo consta, Cornélio Pires era primo de Amadeu Amaral, autor de “O dialeto Caipira” e muito provavelmente também da família da pintora Tarsila do Amaral, pelas ligações que teve com o primeiro e com a cidade de Capivari no Estado de São Paulo.

8- Banzé-de-cuia: encrenca, confusão.

9- Enxu: colmeia da abelha conhecida popularmente como arapuá.

10- Cornélio Pires foi apaixonado pela cultura negra. Seu livro “Conversas ao ‘Pé-do-Fogo” revela bem esta afirmativa. Não estranhe, portanto, o leitor, seu tom romântico, ainda que melancólico, quando se refere ao negro.

11- Como se pode notar, Cornélio Pires já aponta, por volta de 1920, uma significativa miscigenação do negro com o branco italiano, originando o “novo tipo de mulato”, fenômeno anteriormente ligado ao português.