Há 100 anos, em 1918, Monteiro Lobato denunciou a existência do JECA TATU

Senhores : Conheceis, porventura, o Jeca Tatu, dos Urupês, de Monteiro Lobato, o admirável escritor paulista?

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Tivestes, algum dia, ocasião de ver surgir, debaixo desse pincel de uma arte rara, na sua rudeza, aquele tipo de uma raça, que, “entre as formadoras da nossa nacionalidade”, se perpetua, “a vegetar, de cócoras, incapaz de evolução e impenetrável ao progresso”?


JECA TATU Solta Pedro I o grito do Ipiranga. E o caboclo, em cócoras. Vem, com o 13 de maio, a libertação dos escravos; e o caboclo, de cócoras. Derriba o 15 de novembro um trono, erguendo uma república; e o caboclo, acocorado.

 

 

No cenário da revolta, entre Floriano. Custódio e Gumercindo, se joga a sorte do país, esmagado quatro anos por Incitatus; e o caboclo, ainda com os joelhos à boca. A cada um desses baques, a cada um desses estrondos, soergue o torso, espia, coca a cabeça, “magina”, mas volve à modorra e não dá pelo resto.


De pé, não é gente. A não ser assentado sobre os calcanhares, não desemperra a língua, “nem há de dizer coisa com coisa”. A sua biboca de sapé faz rir aos bichos de toca. Por cama, “uma esteira espipada”.

 

 

Roupa, a do corpo. Mantimentos, os que junta aos cantos da sórdida arribana. O luxo do toucinho, pendente de um gancho, à cumeeira. À parede, a pica-pau, o polvarinho de chifre, o rabo de tatu e, em para raio, as palmas bentas.

 

Se a cabana racha, está de “janelinhas abertas para o resto da vida”. Quando o colmo do teto, aluído pelo tempo, escorre para dentro a chuva, não se veda o rombo; basta aparar-lhe a água num gamelo.

Desaprumando-se os barrotes da casa, um santo de mascate, grudado à parede, lhe vale de contraforte. embora, quando ronca a trovoada, não deixe o dono de se julgar mais em seguro no ôco de uma árvore vizinha.
O mato vem beirar com o terreirinho nu da palhoça.

Nem flores, nem frutas, nem legumes. Da terra, só a mandioca, o milho e a cana. Porque não exige cultura, nem colheita. A mandioca “sem-vergonha” não teme formiga. A cana dá a rapadura, dá a garapa, e açucara, de um rolete espremido a pulso, a cuia do café.


Para Jeca Tatu, “o ato mais importante da sua vida é votar no governo”. “Vota. Não sabe em quem. Mas vota.”

 

 

“Jeca por dentro rivaliza com Jeca por fora.

O mobiliário cerebral vale o do casebre”. Não tem sentimento da pátria, nem, sequer, a noção do país. De “guerra, defesa nacional, ou governo”, tudo quanto sabe se reduz ao pavor do recrutamento.

-Mas, para todas as doenças, dispõe de mezinhas prodigiosas como as ideias dos nossos estadistas. Não há bronquite. que resista ao cuspir do doente na boca de um peixe, solto, em seguida, água abaixo.

 

 

Para brotoeja, cozimento de beiço de pote.
Dor de peito? “O porrete é jasmim de cachorro.” Parto difícil? Engula a cachopa três caroços de feijão mouro, e “vista no avesso a camisa do marido”.


Um fatalismo cego o acorrenta à inércia. Nem um laivo de imaginação, ou o mais longínquo rudimento de arte, na sua imbecilidade. Mazorra e soturna, apenas rouqueja lugubres toadas: ‘Triste como o curiango, nem sequer assobia.”

 

No meio da natureza brasileira, das suas catadupas de vida, sons e colorido, “é o sombrio urupê de pau podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas.

 

Não fala, não canta, não ri, não ama, não vive”.


Não sei bem, senhores, se, no tracejar deste quadro, teve o autor só em mente debuxar o piraquara do Paraíba e a degenerescência inata da sua raça.

Mas a impressão do leitor é que. neste símbolo de preguiça e fatalismo, de sonolência e imprevisão, de esterilidade e tristeza, de subserviência e hebetamento. o gênio do artista, refletindo alguma coisa do seu meio, nos pincelou, consciente, ou inconscientemente, a síntese da concepção que têm da nossa nacionalidade os homens que a exploram.


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