Há 100 anos, os comunistas exterminavam a Família Romanov – O Tzar a Tzarina (prima do Rei da Inglaterra e neta da Rainha Vitória) e suas crianças e mais parentes – Noite de 16 para 17 de julho de 1918

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Murdered on this night 100 years ago, his daughters raped and killed before him – by people with us still. (reminded by M. Rafael)

Quem foram os Romanov assassinados pelos comunistas?

  • Mikhail Alexandrovich, filho mais novo de Alexandre III e irmão do czar;
  • Nicolau II, antigo czar de toda a Rússia;
  • Alexandra Fyodorovna (nascida princesa Alexandra de Hesse-Darmstadt), czarina;
  • Os cinco filhos de Nicolau e Alexandra: Olga (22 anos), Tatiana (21 anos), Maria (19 anos), Anastácia (17 anos) e Alexei (13 anos), herdeiro do trono e hemofílico (doença herdada da família do lado materno);
  • Isabel Fyodorovna (nascida Isabel de Hesse-Darmstadt), abadessa e irmã mais velha da czarina;
  • Sergei Mikhailovich, primo direito de Alexandre III, pai de Nicolau;
  • Vladimir Paley, filho de Pavel Alexandrovich, filho mais novo de Alexandre II, avô de Nicolau;
  • Três filhos de Konstantin Konstantinovich, neto de Nicolau I: Konstantin, Igor e Ioann;
  • Nicolau Mikhailovich, primo direito de Alexandre III;
  • Georgii Mikhailovich, irmão deste;
  • Dimitri Konstantinovich, outro filho de Konstantin Konstantinovich;
  • Pavel Alexandrovich, tio de Nicolau.

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Na madrugada de 17 de julho, um grupo de homens escolhidos a dedo matou Nicolau II e a família real russa. Cem anos depois, a sombra do crime violento, aprovado por Lenine, ainda paira sobre a Rússia.

 

Yakov Yurovski estava nervoso. Filipp Goloshchyokin tinha-lhe dito que o camião chegaria por volta da meia-noite, altura em que seria transmitida a ordem de execução. Já passava da uma da manhã e ainda não tinha chegado qualquer informação da parte do Comité Executivo do Soviete Regional dos Urais, responsável pela decisão final. Cada vez mais tenso, Yurovski foi aguardando.

 

Os seus homens, armados até aos dentes, esperavam no seu gabinete na Casa Ipatiev desde as onze da noite. Finalmente, à 1h30, um camarada do partido dirigiu-se ao guarda de serviço e passou-lhe a mensagem há muito esperada: “limpa-chaminés”. Yurovski podia entrar em ação.

Por volta das três da manhã, todos os ocupantes da Casa Ipatiev estavam mortos. Nicolau, ex-czar de toda a Rússia, a mulher, os cinco filhos e os empregados que tinham percorrido com eles metade do país, foram brutalmente assassinados na adega da moradia de dois andares que, antes de o Exército Vermelho tomar conta de Ecaterimburgo, tinha pertencido a um engenheiro de minas abastado.

 

Depois de assassinados, os cadáveres dos Romanov foram transportados dentro da carrinha Fiat até a um bosque, desfigurados com ácido sulfúrico e enterrados em duas valas com poucos centímetros de profundidade, abertas no meio de uma estrada. Depois de aplanada a terra, com a ajuda do camião, Yurovski e os seus homens fizeram um voto de silêncio: a noite de 16 para 17 de julho de 1918 nunca tinha acontecido.

Oficialmente, Moscovo nunca deu qualquer explicação para o desaparecimento da família real, em prisão domiciliária desde a abdicação de Nicolau II, em 1917. Com a perseguição e morte dos restantes Romanov e a complicada situação política que se vivia no país desde a Revolução de Fevereiro (dificultada pela Revolução de Outubro), o caso acabou por cair no esquecimento.

 

Havia coisas mais importantes a acontecer. Foi só com a queda da União Soviética, no início dos anos 90, que a tragédia dos Romanov começou a emergir. A descoberta dos restos mortais de Nicolau e da família foi um primeiro passo importante no encerramento de um dos capítulos mais negros da história da Rússia. Mas há ainda dois corpos por sepultar e, enquanto isso não acontecer, os descendentes da família real russa não podem ter descanso.

O fim da dinastia

Para compreender como é que os Romanov foram executados numa adega em Ecaterimburgo é preciso recuar no tempo, ao início do reinado de Nicolau II e ao surgimento dos primeiras revoltas populares. Um governante obstinado e duro, o filho de Alexandre III procurou sempre impedir uma mudança no poder estabelecido, lutando com todas as suas forças contra o instituição de uma monarquia constitucional na Rússia.

 

Não queria perder o poder que lhe tinha sido concedido por Deus e herdado do pai. Quando permitiu a criação da Duma, a assembleia legislativa, em 1905, fê-lo contrariado. Daí para a frente, procurou sempre dificultar o trabalho dos deputados e ministros, que trocava como uma facilidade impressionante e dos quais desconfiava constantemente. Autocrata convicto, “extremista nacionalista” e “nostálgico iludido”, para recorrer às palavras do historiador britânico Robert Service, Nicolau manteve-se sempre fiel às suas próprias ideias e ao seu conceito antiquado de Rússia, mesmo perante as situações mais complicadas.

Apontar o dedo a Rasputin, que pouco mais fazia do que apoiar as ideias do czar, ou a Alexandra, a esposa histérica que gostava tanto de opinar sobre os assuntos do Estado, é mera ingenuidade. As ações de Nicolau “eram as de um governante que se julgava sempre certo”, como escreveu Service no livro O Último dos Czares — Nicolau II e a Revolução Russa, que percorre o último ano de vida do imperador. “Tinha a certeza de que a direção em que estava a levar a Rússia era a certa.

 

Tinha uma autoconfiança que os seus ministros nunca perceberam completamente”, disse o autor durante uma entrevista concedida ao Observador a propósito do lançamento do seu livro em português, pela editora Desassossego, em 2017. Foi Nicolau que se condenou a ele próprio.

“Tinha a certeza de que a direção em que estava a levar a Rússia era a certa. Tinha uma autoconfiança que os seus ministros nunca perceberam completamente.”
Robert Service, autor de “O Último dos Czares”

Isso tornou-se claro em 1917, quando a revolução fez cair a antiga São Petersburgo, que então se chamava Petrogrado porque era um nome “menos alemão”. Nicolau, que tinha assumido o comando do exército russo na Primeira Guerra Mundial, estava longe da capital, em Mogilev (na atual Bielorrússia), na Frente Oriental, quando, a 23 de fevereiro, a população, descontente com o racionamento de comida, saiu às ruas para se manifestar contra o czar e contra o governo. Os protestos violentos duraram dias. A 27 de fevereiro, as tropas imperiais renderam-se depois de um tiroteio. A capital caiu perante a revolução.

 

Os membros da Duma, que queriam preservar a monarquia, tentaram chegar a um acordo com os revolucionários. A ideia era formar um Governo Provisório e garantir a abdicação de Nicolau a favor do filho, Alexei, com 12 anos. O príncipe Georgy Lvov seria o primeiro-ministro e o deputado Aleksandr Kerensky o ministro da Justiça.

Os ministros contavam com alguma resistência da parte do czar, mas esperavam que Nicolau acabasse por perceber a gravidade da situação. Não tinha escolha: tinha de abdicar. A cedência do poder ao pequeno Alexei deveria facilitar a decisão, mas a escolha que Nicolau acabou por fazer depois de lhe exporem o caso surpreendeu toda a gente: o czar concordou em deixar o trono, mas não quis que este passasse para o filho. Alexei tinha hemofilia (uma doença crónica que afeta o mecanismo de coagulação do sangue nos homens), que tinha herdado do lado da mãe. Alexandra Fyodorovna (nascida princesa Alexandra de Hesse-Darmstadt) era neta da rainha Vitória que, através dos seus nove filhos, transmitiu a doença “à comunidade de primos da Europa”, explicou Simon Sebag Montefiore, autor de um livro sobre a história da dinastia Romanov (editado em Portugal pela Presença).

 

Um dos filhos da governante, Leopold, duque de Albany, um dos irmãos de Alexandra, Friedrich, e um dos filhos da sua irmã Irene também tinham morrido por causa da hemofilia.

Nicolau e Alexandra sempre tentaram esconder a doença de Alexei de tudo e de todos, incluindo da própria família. Em 1917, isso já não interessava. No documento de abdicação, Nicolau foi o mais sincero possível: disse que não queria ser afastado do filho e que, por essa razão, passava a sucessão ao irmão, o grão-duque Mikhail Alexandrovich Romanov, abençoando-o. Misha, como era conhecido entre amigos e familiares, estava em Petrogrado quando os membros da Duma lhe bateram à porta para o informar de que era o novo imperador de toda a Rússia. Apanhado de surpresa, o irmão mais novo de Nicolau iniciou negociações. Passado um dia, tomou uma decisão: abdicar. A monarquia russa caiu.

A 7 de março de 1917, quando Nicolau ainda estava na Frente Oriental, o Governo Provisório ordenou a sua colocação sob guarda e o seu envio para Tsarskoe Selo, a residência imperial nos arredores de Petrogrado de que a família gostava tanto. Partiu no dia seguinte para se juntar a Alexandra e aos filhos no Palácio de Alexandre. Nunca mais voltou a estar em liberdade e a Rússia nunca mais foi a mesma.

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Um novo cativeiro

Em Tsarskoe Selo, os dias iam passando, uns iguais aos outros. Na capital tudo era diferente: “Choveu durante toda a manhã, mas o tempo abriu antes das 14h; arrefeceu para a noite. Passei o dia como habitualmente. Em Petrogrado têm havido momentos de distúrbios, com disparos. Ontem chegaram bastantes marinheiros e soldados de Kronstadt para atacar o Governo Provisório”, escreveu Nicolau no seu diário, numa entrada datada de 18 de julho de 1917. O exército russo estava a perder terreno contra os alemães na Ucrânia e as manifestações organizadas pelos bolcheviques na capital eram cada vez mais numerosas. Todas medidas tomadas para tentar conter a ira popular se mostravam inúteis e a posição do Governo Provisório era cada vez mais frágil. Como apontou Robert Service no seu livro, este só conseguiu sobreviver graças à resignação de Georgy Lvov e à promoção de Alexander Kerensky, antigo ministro da Justiça, a primeiro-ministro. O caos estava instalado.

Foi Kerensky que tomou a decisão de tirar os Romanov do palácio. Os protestos em Petrogrado eram cada vez mais intensos e podiam facilmente chegar a Tsarskoe Selo. Apesar da abdicação, havia quem ainda culpasse o czar pelo estado da Rússia. O retiro de Nicolau e Alexandra, o seu palácio favorito, já não era seguro. Era preciso agir, mas ninguém parecia estar interessado em acolher o antigo imperador.

“Em Petrogrado têm havido momentos de distúrbios, com disparos. Ontem chegaram bastantes marinheiros e soldados de Kronstadt para atacar o Governo Provisório.”
Diário de Nicolau II, 18 de julho de 1917

Depois de várias trocas de correspondência com a embaixada britânica em Petrogrado, George V, que era primo do czar, acabou por voltar atrás na palavra e recusar-se a receber a família real russa no seu país. Os britânicos não tinham a melhor opinião de Nicolau, que acreditavam ser um déspota terrível. O rei britânico não foi o único monarca a virar as costas ao czar, aparentado com muitas das grandes casas reais da europeias. Apenas o governo dinamarquês mostrou disponibilidade em receber a família, oferecendo exílio à imperatriz viúva, princesa da Dinamarca, e às suas filhas Xenia e Olga. Maria Fyodorovna, que residia então em Kiev, recusou o convite porque a grã-duquesa Olga, de 34 anos, estava grávida. Tal como os restantes Romanov, Maria não tinha consciência do perigo que corria.

Apesar da decisão imprudente, a imperatriz viúva acabaria por ser uma das poucas Romanov a sobreviver à perseguição dos bolcheviques. Maria Fyodorovna e a filha mais velha, Xenia, que tinham conseguido viver tranquilamente em Ai-Todor, na Crimeia, desde 1917, acabaram por partir em 1919, a bordo do navio HMS Marlborough, rumo a Inglaterra. Depois de uma temporada com a irmã Alexandra da Dinamarca, mãe de George V, Maria regressou à Dinamarca, país que tinha abandonado em 1866 para casar com o futuro Alexandre III. Foi aí que morreu, em 1928, dez anos depois da morte de Nicolau. Xenia permaneceu em solo britânico. Morreu em 1960. Já Olga, passou os últimos anos de vida em Toronto, no Canadá, onde morreu no mesmo ano que a irmã.

Excluída a hipótese do exílio no estrangeiro, Kerensky teve de procurar uma opção dentro das fronteiras da Rússia. O local escolhido foi Tobolsk. A possibilidade de mudar a família real para pequena povoação no oeste da Sibéria ocorreu ao primeiro-ministro depois de se ter encontrado com o comissário provincial da região, V. N. Pignatto, que se deslocou à capital russa para uma conferência com outros governantes com um cargo idêntico ao seu. A povoação siberiana, sossegada e remota, ainda não tinha sido afetada pelos tumultos das grandes cidades. E melhor ainda: não havia nenhumRomanov a viver ali perto. Era o lugar perfeito. A operação foi organizada com o maior secretismo. Kerensky temia que a nova morada dos Romanov pudesse ser descoberta pelos inimigos da monarquia e que estes organizassem um atentado contra a família. Nem mesmo Nicolau foi informado do destino. A ele — tal como aos restantes Romanov — foi-lhe apenas dito que devia levar agasalhos e roupa quente. Fazia muito frio para onde iam.

A família real deixou o palácio na madrugada de 14 de agosto de 1917. Alexander Kerensky deslocou-se à estação para se despedir, acompanhado por Ievgueni Kobylibski, militar encarregue de supervisionar a segurança do czar em Tobolsk. Disse adeus a Nicolau e beijou a mão de Alexandra. Quando a família partiu, já havia luz do dia. Nicolau acreditou sempre que a mudança para a Sibéria seria temporária. Havia de voltar Tsarskoe Selo ou instalar-se num outro local, talvez na Crimeia. Só precisava de ter paciência. A situação haveria de acalmar e tudo voltaria ao normal. Afinal, os russos eram um “povo bom, gentil”, como chegou a dizer. A revolução era passageira.

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A caminho de Ecaterimburgo

Os Romanov viveram na antiga casa do governador da Sibéria (apelidada Casa da Liberdade depois da Revolução de Fevereiro), em Tobolsk, desde agosto de 1917 até abril de 1918, altura em que foi decidido que deviam mudar de residência. A decisão foi tomada por Yakov Sverdlov, presidente do Comité Central Executivo, secretário do partido bolchevique e um dos favoritos de Lenine. Desde a subida ao poder dos bolcheviques, na sequência da Revolução de Outubro, era a ele que cabia decidir o futuro da família real.

De acordo com o historiador britânico Simon SebagMontefiore, Lenine pretendia transferir Nicolau, Alexandra e os filhos para Moscovo, onde agora o governo ficava instalado, e julgar o czar publicamente (Trotsky, formado em Direito, até se ofereceu para servir como advogado de acusação), mas Sverdlov acabou por ordenar que os Romanov seriam primeiro levados para os Urais e instalados em Ecaterimburgo. “Desconhecem-se as suas verdadeiras intenções”, escreveu Montefiore em Os Romanov. “O mais provável é que tencionassem transferir Nicolau para Moscovo, mas, devido à crise, foi decidido ‘por enquanto’ guardar os Romanov no bastião bolchevique de Ecaterimburgo; em caso de dúvidas, podiam ser mortos.”

Da esquerda para a direita: as grã-duquesas Maria, Olga, Anastácia e Tatiana com os cães Jimmy e Ortino em Tsarskoe Selo, na primavera de 1917

Ecaterimburgo era a cidade mais importante da região dos Urais. Segundo Robert Service, foi escolhida “por ser um centro dinâmico de bolchevismo cujos líderes já haviam deixado a sua marca no partido”, que tinha algumas figuras de destaque oriundas dos Urais. De um modo geral, os bolcheviques daquela região “pendiam para o lado radical em muitas disputas do partido. Cada vez mais eram conhecidos como Comunistas de Esquerda. Haviam-se mostrado contra uma paz parada com os Poderes Centrais; exigiam alterações económicas fundamentais. Pretendiam concretizar os seus sonhos marxistas sem delongas e insistiam que o único motivo da Revolução de Outubro fora a oportunidade de fundar o comunismo imediato”, escreveu o especialista no seu livro sobre Nicolau II. “Para o resto do mundo, Lenine e Trotsky apareciam como radicais intransigentes, enquanto os comunistas de esquerda os criticavam por cautela desnecessária, sendo os Urais um centro fulcral para a tentativa de pôr as suas ideias em prática.”

A 25 de abril de 1918, Nicolau foi informado de que ia ser transferido. Alexandra, que não o quis deixar viajar sozinho porque temia que o obrigassem a assinar o tratado de paz com a Alemanha, disse que ia com ele. Maria, a terceira filha do casal, também foi autorizada a ir, enquanto as irmãs, Olga, Tatiana e Anastácia ficaram para trás para cuidar de Alexei, gravemente doente. Juntar-se-iam aos pais mais tarde. Nicolau, Alexandra e Maria partiram de Tobolsk a 26 de abril, em carruagens puxadas por cavalos. Um comboio transportou-os desde a estação de Tiumen até a Ecaterimburgo, onde chegaram a 3 de abril de 1918, da parte da manhã. Uma multidão reuniu-se junto à plataforma, desejosa de ver Nicolau. Os motivos eram os priores — queriam a morte do czar. Os operários dos Urais eram extremamente hostis em relação à família real e o czar sabia disso. Ainda a bordo do comboio, quando descobriu que o destino final era Ecaterimbrugo, Nicolau mostrou-se reticente. “Preferia ir para qualquer lado que não os Urais”, terá dito. A estadia na cidade começou mal.

Moscovo incumbiu os líderes dos Urais de decidirem onde instalar Nicolau e a família. Depois de afastada a opção mais óbvia — a prisão da cidade — e de terem examinado vários edifícios públicos, Alexander Beloborodov, presidente do Comité Executivo do Soviete Regional dos Urais, e Filipp Goloshchyokin, comissário militar do mesmo organismo, chegaram à conclusão de que a melhor solução seria requisitar a residência de um cidadão abastado. A escolha recaiu sobre a casa de Nikolai Ipatiev, um engenheiro de minas e mercador abastado que, durante a Primeira Guerra Mundial, tinha lucrado com a prosperidade económica da cidade. Figura destacada da sociedade de Ecaterimburgo, Ipatiev foi informado de que devia abandonar a sua casa a 27 de abril pelo comissário para a habitação dos Urais. Foi-lhe dado um prazo de 48 anos. Ele e a família reuniram tudo o que conseguiram e mudaram-se para casa de familiares, na aldeia de Kurinskoe, nos arredores da cidade.

Construída na década de 1880 para Ivan Redikortsev, um empresário da indústria mineira, a Casa Ipatiev era uma mansão confortável, feita de pedra, com as paredes exteriores caiadas de branco e o telhado de ferro pintado de verde. Situada numa colina, na esquina da avenida Voznesensky Prospekt com a alameda Voznesensky, um dos lados dava para um grande lado e o outro para a alameda, onde havia um pequeno jardim. O piso de baixo ficava parcialmente abaixo do nível do chão. “Essas características seriam convenientes no que diria respeito à segurança”, escreveu Robert Service. Os bolcheviques queriam uma casa que pudessem isolar com facilidade e defender de possíveis ataques.

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12 de junho: a primeira morte

A 20 de maio, Olga, Tatiana, Anastácia e Alexei partiram de Tobolsk com os criados para se juntarem à família em Ecaterimburgo, o seu destino final. Enquanto isso, o Soviete dos Urais começou, a pouco e pouco, a aprisionar todos os Romanov, despachando muitos deles para Alapaevsk, a cerca de 150 quilómetros de distância. A única exceção foi Mikhail. O irmão mais novo do czar e o seu secretário de origem inglesa, Nikolai Johnson, tinham sido detidos a 7 de março de 1918 e enviados para Perm poucos dias depois. Colocados em prisão domiciliária no Hotel Korolev, Misha e Johnson viviam “discretamente” e “andavam sem problemas pela cidade” dos Urais, de acordo com Robert Service. Até que a liberdade do Romanov começou a ser um problema: “A residência permanente de Mikhail num hotel destacado punha em causa as pretensões dos bolcheviques. Se fora decidido que outros Romanov deveriam permanecer detidos, começou a pôr-se em causa o que fazer com Mikhail”, escreveu o mesmo autor. Segundo Simon Sebag Montefiore, foi em junho, quando as forças contrarrevolucionárias começaram a ameaçar a localidade, que o ramo dos Urais da Cheka, a nova polícia política russa, decidiu que era melhor que Misha e o seu secretário desaparecessem.

Foi Gavriil Myasnikov, um líder chekista local, que tomou a iniciativa de raptar e matar Mikhail Romanov. Depois de obter autorização da Cheka de Perm, recrutou quatro homens (que, nas suas próprias palavras, “estavam dispostos a morder a garganta de alguém”) e, por volta da meia-noite de 12 de junho, entrou no Hotel Korolev. De modo a convencer Mikhail e Johnson a deixarem o edifício e a entrarem com ele para uma carruagem, Myasnikov ter-lhes-á dito que corriam perigo de vida e que era imperativo que abandonassem os seus quartos. Os dois concordaram e, sem mais explicações, foram levados para um bosque nos arredores da cidade, onde foram assassinados com um tiro na cabeça. Os seus corpos foram queimados com parafina e todos os seus bens roubados. Segundo informações recolhida pela S.E.A.R.C.H., uma fundação criada para ajudar a recuperar os restos mortais dos Romanov assassinados pelos bolcheviques, o médico do grão-duque também terá sido obrigado a deslocar-se até à floresta. Misha estava doente quando foi levado. Foi o primeiro membro da família real a morrer às mãos dos revolucionários, mais de um mês antes do assassinato de Nicolau.

Existem várias versões quanto ao que se passou a seguir. A mais recente — e aquela que a S.E.A.R.C.H., que tem participado ativamente na descoberta dos restos mortais dos Romanov, acredita ser verdadeira –, foi divulgada na última década um rapaz que vivia perto do local do crime, a única testemunha conhecida dos eventos de 12 de junho de 1918. De acordo com esta, Graviil Myasnikov não terá enterrado logo os corpos. Como já era tarde, terá decidido cobri-los apenas com ramos de árvores e voltar no dia seguinte. Isso deu tempo aos locais — que terão ouvido os tiros disparados por Myasnikov e pelos seus homens — de procurarem as vítimas, que terão sido encontradas por um jovem, que correu a chamar o pai. Este, acompanhado por outras pessoas que ali viviam, enterrou Mikhail Romanov e Nikolas Johnson, gravando as letras “M” e “A” (as iniciais de “Mikhail Alexandrovich”, o nome próprio do grão-duque) numa árvore para marcar o local. Quando Myasnikov voltou no dia seguinte, não foi capaz de encontrar os corpos, que permanecem em paradeiro desconhecido.

Porque é que Graviil Myasnikov não quis enterrar imediatamente os cadáveres de Misha e do seu secretário? A decisão parece estranha, mas Edvard Radzinsky adiantou uma explicação bastante simples: na sua biografia do último czar da Rússia, o autor revelou que Myasnikov não foi diretamente responsável pelo assassinato do grão-duque e deu a entender que o revolucionário não se quis envolver diretamente no crime, tendo desaparecido pouco tempo depois. Nos anos que se seguiram à revolução, Myasnikov chegou até a passar para o lado da oposição, lutando contra Lenine. Nos anos 20, foi expulso do Partido Comunista Russo e posteriormente exilado. Depois de anos a fugir dos serviços secretos russos, conseguiu obter um visto e regressar à Rússia, em 1944. Foi detido e executado em 1945. Também Myasnikov foi apagado da história.

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17 de julho: a chacina da Casa Ipatiev

Cerca de um mês depois da morte de Mikhail, Moscovo ordenou a morte dos Romanov. “Lenine ainda estava a ponderar a ideia do julgamento, mas acabou por reconhecer que não seria prático”, escreveu Montefiore, considerando que as ordens que Yakov Yurovsky, comandante das tropas na Casa Ipatiev e responsável por organizar a execução, recebeu em Ecaterimburgo “mostram claramente que Lenine aprovou a matança da família em conversas com Sverdlov no Kremlin”. O momento foi, contudo, deixado ao critério dos líderes dos Urais. Para que a História não se encarregasse de os culpar pelo assassinato de inocentes, Lenine, presidente do Sovnarkom (a autoridade máxima do governo russo), e Sverdlov, secretário do Comité Central Bolchevique e presidente do Comité Executivo Central do Congresso dos Sovietes, “tiveram o cuidado de não ordenar especificamente a matança por escrito e Lenine foi protegido não sendo incluído na correspondência. Sverdlov era um gestor por excelência, Lenine era o decisor político e decidiam tudo em conjunto”.

A forma como os Romanov morreram na cave da casa onde foram detidos e os seus corpos enterrados nos arredores de Ecaterimburgo, dá a impressão de toda a operação ter sido levada a cabo por um grupo de amadores. A verdade é que o assassinato da família real russa foi planeada com alguma antecedência (desde 15 de julho de 1918), ainda que os pormenores tenham sido deixados para a última da hora. Yakov Yurovsky admitiria, mais tarde, que tanto ele como o seu braço direito, Grigory Nikulin, não pensaram em algumas questões importantes. “Tudo tinha de ser feito o mais rapidamente possível”, recordou. A cidade estava prestes a cair nas mãos do Exército Branco, as forças contrarrevolucionárias. Não havia tempo a perder.

Para executar os Romanov, o bolchevique de 40 anos decidiu “usar tantos homens quantas pessoas a abater”. A tarefa era simples, e Yurovskyexplicou-a ao grupo de letões e húngaros que contratou — tudo se passaria na adega da casa, uma divisão com pouco mais de sete metros quadrados, iluminada por uma única lâmpada e meio escavada na colina. Para transportar os corpos para fora do edifício, seria usado um camião Fiat, requisitado na Garagem Militar. GrigoryNikulin, PavelMedvedev, MikhailMedvedev e PyotrErmakov iam acompanhá-lo. O dia escolhido foi 16 de julho.

A antiga adega da Casa Ipatiev, em Ecaterimburgo, onde os Romanov foram assassinados. Ao todo, foram disparados cerca de 70 tiros contra 11 pessoas

Pelas 17h50, Filipp Goloshchekin, Comissário Militar do Comité Executivo do Soviete Regional dos Urais, telegrafou a Lenine e a Sverdlov, através de Grigory Zinoviev, chefe do Soviete de Petrogrado, para informar Moscovo de que “o julgamento decidido” não podia ser adiado. “Não podemos esperar”, afirmou. “Caso tenham uma opinião diferente, notifiquem-nos de imediato.” A palavra “julgamento” era o nome de código para a execução dos Romanov, como apontou Simon Sebag Montefiore. Para o autor, “os destinatários do telegrama provam que o assassinato foi discutido ao mais alto nível e o tom da missiva revela que Moscovo deixou a decisão final ao critério de Ecaterimburgo”. Isso seria importante na hora de atribuir as culpas.

No gabinete do comandante, foram reunidas seis pistolas e oito revólveres — 14 armas para matar 11 pessoas, cinco delas menores. Quando estava tudo a postos, Yurovsky reuniu os seus homens mas, “ao último minuto, dois letões negaram-se” a participar na matança. Não queria ser responsáveis pela morte das raparigas. Yurovsky não fez caso, “não tinham” o que era “preciso”. Ficou com dez a oito assassinos (não se sabe o número ao certo), incluindo os Medvedev e Pyotr Ermakov. Ao final da tarde, o rapaz que trabalhava na cozinha, Leonid Sednev, foi mandado embora com o pretexto de que o seu tio tinha regressado à cidade e o queria ver. No seu diário, Alexandra Fyodorovna questionou-se se algum dia voltaria a ver Leonid, companheiro de brincadeiras de Alexei.

A família deitou-se por volta das 22h30. Yurovsky ficou à espera do camião e da ordem final do Soviete do Comité Executivo dos Urais, que chegou à 1h30. O Dr. Botkin foi o primeiro a ser acordado. Yurovsky bateu-lhe à porta do quarto, junto à entrada, e avisou-o de que precisava de se vestir. Havia problemas na cidade e a família tinha de ser rapidamente transferida para um local mais seguro. A mensagem foi transmitida aos Romanov e restantes serviçais. Para não “lhes causar nenhum desconforto desnecessário”, foi-lhes dado “tempo de sobra” para se vestirem. Yurovsky não queria criar o pânico, tentou não os apressar. Enquanto todos se preparavam, sem desconfiarem de nada, o comandante dos guardas regressou ao seu gabinete para distribuir as armas e os membros da família pelos assassinos. Pyotr Ermakov, que tinha chegado bêbedo à Casa Ipatiev, foi o único a ficar com duas vítimas — Alexandra e o médico Dr. Botkin — e com mais de uma arma — três revólveres Nagants, um Mauser e uma baioneta. Aos seus homens, Yurovsky deu apenas uma indicação: pediu-lhes que “atirassem ao coração” e que evitassem “uma quantidade excessiva de sangue”, citou Montefiore. Tudo devia acabar depressa.

“Tendo em conta o facto de que os vossos parentes prosseguem a sua ofensiva contra a Rússia soviética, o Presidium do Soviete Regional dos Urais decidiu sentenciar-vos à morte.”
Sentença lida por Yakov Yurovsky na Casa Ipatiev

Nicolau, vestido com o seu uniforme militar, foi o primeiro a descer. Passava das duas da manhã. Levava Alexei ao colo, fragilizado pela doença. Alexandra e as filhas, vestidas com blusas brancas e saias escuras, apareceram depois, seguidas pelo Dr. Botkin, de fato e gravata, e os três serviçais — a criada de quarto Anna Demidova, o cozinheiro Ivan Kharitonov e o criado particular Alexei Trupp. Yurovsky conduziu-os até à adega e, antes de se dirigir à família, ordenou a Alexandra e Alexei que se sentassem nas duas cadeiras entretanto preparadas. A czarina tinha-se queixado que não tinham onde se sentarem quando o chekista lhes ordenou que se encostassem à parede. Nicolau colocou-se em frente ao filho e Botkin atrás deste; Tatiana e Anastácia ficaram atrás da mãe e Olga e Maria junto à parede da adega. “Os Romanov estavam absolutamente calmos” e “não desconfiavam de nada”, recordou mais tarde o bolchevique. Só se aperceberam do que se estava a passar quando o revolucionário, depois de ter mandado entrar o camião e pedido ao motorista que puxasse pelo motor para abafar o barulho dos disparos, anunciou que o Executivo do Soviete Regional dos Urais tinha ordenado a sua execução.

Enquanto o grupo de assassinos entrava na divisão, Yurovsky leu a sentença: “Tendo em conta o facto de que os vossos parentes prosseguem a sua ofensiva contra a Rússia soviética, o Presidium do Soviete Regional dos Urais decidiu sentenciar-vos à morte”. Enquanto a família gritava, Nicolau, em choque, pediu ao revolucionário que lesse “outra vez, por favor”. Julgava não ter compreendido o que tinha acabado de ser dito. Não podia ter percebido bem. A resposta do membro do Soviete dos Urais foi um tiro disparado na sua direção. Os seus companheiros dispararam a seguir. Com o peito manchado de sangue, o último czar de toda a Rússia cambaleou para a frente e caiu no chão da adega. Foi o primeiro a morrer na madrugada de 17 de julho de 1918, na Casa Ipatiev.

Os disparos desordenados atingiram Eugene Botkin e os criados, mas Alexandra e os filhos continuaram vivos, encostados às paredes da adega em estado de choque. Yurovsky ordenou que os seus homens continuassem a descarregar sobre as vítimas, mas os tiros eram cada vez mais desorganizados. Um deles acertou na mão de um dos assassinos, que tossiam por causa da poeira que enchia a pequena divisão. Terá sido Ermakov que terá matado Alexandra Fyodorovna com um disparo na cabeça, mas a confusão era grande dentro da adega.

Depois de descansarem durante um momento, os homens voltaram a entrar na sala para acabar o serviço. Botkin, que ainda estava vivo, foi alvejado na cabeça por Yurovsky. Este, juntamente com o seu assistente, Grigory Nikulin, disparou sobre Alexei, paralizado na sua cadeira com o rosto coberto de sangue do pai. O rapaz de 13 anos caiu para o chão mas não morreu de imediato, protegido pelos diamantes da família que tinha escondidos sob a roupa. Ermakov tentou esfaqueá-lo com a baioneta, mas foi Yurovsky que acabou por matá-lo, com um tiro na cabeça. As irmãs foram esfaqueadas e alvejadas. Bêbedo de sangue, Ermakov ainda esfaqueou Nicolau e Alexandra, que jaziam mortos no chão, com a baioneta. O buldogue  de Tatiana, Ortino, que apareceu quando os assassinos estavam a empilhar os cadáveres no camião Fiat, teve a mesma sorte. Jemmy, o cão de colo, também. Apenas o cão de Alexei sobreviveu.

A execução terá demorado cerca de 20 minutos, o suficiente para deixar a adega da Casa Ipatiev irreconhecível: “Os cadáveres jaziam numa confusão horrível, com os olhos abertos de horror e as roupas cobertas de sangue. O chão estava tão molhado e escorregadio com sangue, miolos e entranhas que parecia um rinque de patinagem”, descreveu posteriormente o revolucionário e diplomata Pyotr Voykov, a quem coube inspecionar a cave. Ao todo, terão sido disparados mais de 70 tiros. O cenário era tal que, antes de transportar as vítimas para longe do edifício (Yurovsky tinha a intenção de queimar os corpos e deitá-los ao poço de uma mina nos arredores de Ecaterimburgo), o chefe da guarda ordenou aos seus homens que lavassem a divisão. Robert Service considerou, em entrevista ao Observador, que o crime, “particularmente bárbaro”, aconteceu numa Rússia que “estava a cair na barbárie de uma guerra civil”. “Havia milhões de pessoas armadas pela Rússia fora. Era um país com demasiada experiência de conflito armado, preso na ideia de que a violência era a forma mais rápida de resolver um problema social. Daí que a paciência estivesse em baixo”, afirmou o especialista.

O assassino Peter Emarkov no lugar onde os Romanov foram enterrados no bosque de Koptyaki, nos arredores de Ecaterimburgo

O trajeto até ao bosque de Koptyaki, nos arredores de Ecaterimburgo, foi demorado. A estrada era irregular e o camião estava demasiado pesado. Depois de se encontrar com um grupo de mais de 20 homens contratados por Ermakov, que chegaram bêbedos à floresta, Yurovsky ordenou que se revistassem os cadáveres em busca de jóias e outros objetos de valor. Os homens — que se tinham queixado de não terem podido participar no assassinato da família real — “ficaram de olhos esbugalhados” quando descobriram que os Romanov tinham escondido diamantes no forro das roupas — uma pequena fortuna que depois seguiu para Moscovo. Ainda traziam ao pescoço os amuletos com miniaturas de Rasputin, que acreditavam protegê-los de todo o mal.

Em seguida, os corpos foram empilhados em carrinhos de mão, uns em cima dos outros, e transportados para perto de uma mina conhecida como “Quatro Irmãos”. Depois de despidos e as suas roupas queimadas, foram atirados para o fundo de um poço conhecido por “Ganina Yama” e regados com ácido sulfúrico para que não pudessem ser reconhecidos. Apercebendo-se de que o fosso não era fundo o suficiente (tinha apenas três metros de profundidade), Yurovsky tentou explodi-lo com granadas. De pouco valeu. O dia tinha entretanto amanhecido, e o membro do Soviete dos Urais não teve outro remédio senão voltar para Ecaterimburgo e deixar três homens a guardar o lugar. Era preciso arranjar outra solução.

“A Rússia estava a cair na barbárie de uma guerra civil. Havia milhões de pessoas armadas. Era um país com demasiada experiência de conflito armado.”
Robert Service, autor de “O Último dos Czares”

Às nove da noite de 17 de julho, Alexander Beloborodov, que entretanto tinha recebido o relatório de Yakov Yurovsky, enviou um telegrama urgente ao adjunto de Lenine, Vladimir Gorbunov: “Diga a Sverdlov que toda a família sofreu o mesmo destino do seu líder, oficialmente, a família vai perecer na evacuação”. No dia seguinte, segundo a investigação de Robert Service, Yakov Sverdlov levou a mensagem ao Comité Executivo Central do Congresso dos Sovietes, que aprovou o que tinha sido feito pelas chefias dos Urais. Encerrava-se assim a história do desaparecimento do último czar de toda a Rússia. Em Ecaterimburgo, porém, os trabalhos continuaram. Depois de várias tentativas frustradas, na madrugada de 19 de julho, pelas 4h30, Yurovsky, que não dormia há duas noites, carregou um camião com gasolina e ácido sulfúrico e regressou com os seus homens à mina dos “Quatro Irmãos”.

Depois de recuperar os corpos, decidiu transportá-los para outro local nas antigas minas de cobre. Contudo, durante o transporte dos cadáveres, o camião Fiat ficou preso na lama, num local conhecido por “Porosenkov Log” (“Campo do Porco”). Os homens estavam exaustos e começavam a recusar-se a obedecer às ordens. Yurovsky, que queria encerrar o caso o mais rapidamente possível, decidiu enterrar os restos mortais da família real ali mesmo. Foi aberta uma vala com pouco mais de 60 centímetros de profundidade e os corpos dos últimos Romanov queimados e regados novamente com ácido sulfúrico. As suas caras foram esmagadas com as pontas das espingardas. Alexei e uma das irmãs foram enterrados longe da restante família, a alguns metros de distância, numa segunda cova. Yurovsky esperava assim despistar quem encontrasse uma das sepulturas. Depois de aplanada a terra com a ajuda do camião, o revolucionário reuniu os seus homens e disse-lhes para “nunca falarem do que tinha acontecido”. Deviam “esquecer tudo o que tinham visto”. A noite de 16 para 17 de julho não tinha passado de um sonho.

No ano seguinte, Yakov Yurovsky tornou-se líder da Cheka de Ecaterimburgo. Um oficial britânico que o conheceu em 1920 recordou, mais tarde, que o bolchevique tinha remorsos do papel que tinha desempenhado na execução dos Romanov. Morreu em 1938, depois de ter ocupado vários cargos públicos (incluindo o de diretor do Museu Politécnico de Moscovo), assombrado pelo que tinha acontecido naquela madrugada.

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18 de julho: a chacina de Alapaevsk

A onda de mortes não se resumiu a Ecaterimburgo. Vinte e quatro horas depois do assassinato do czar, da czarina e dos seus filhos, foi realizada uma operação em Alapaevsk que teve como alvo os Romanov detidos nessa localidade desde maio de 1918: a irmã da czarina, Isabel Fyodorovna, mais conhecida por Ella, a sua companheira, a irmã Varvara Yakovleva, Sergei Mikhailovich, primo direito do pai de Nicolau, Vladimir Paley, filho de Pavel Alexandrovich Romanov, tio do czar, e três filhos de Konstantin Konstantinovich, neto de Nicolau I, Konstantin, Igor e Ioann. Instalados na Escola Napolnaya, nos arredores da cidade, estes familiares de Nicolau II começaram por ter mais liberdade do que ele. Podiam caminhar pelas ruas e falar com os habitantes, mas a situação piorou rapidamente: no início de julho, os passeios foram proibidos, foi colocado arame farpado em torno da escola e aberto um fosso para impedir que os prisioneiros fugissem.

Na noite de 17 para 18 de julho, um grupo de oficiais da Cheka apareceu de surpresa na Escola Napolnaya, acompanhados por líderes soviéticos da região. De acordo com o relato posterior de um dos envolvidos, Vasily Ryabov, há muito que o destino “dos membros da família imperial em Alapaevsk tinha sido decidido em Moscovo”. “Estávamos apenas à espera da ordem para executar a sentença. Assim que recebemos as notícias da execução do czar e de toda a família, pusemos imediatamente o nosso plano em ação, sem perder um segundo”, contou.

Isabel Fyodorovna, uma das irmãs mais velhas da czarina (tinham oito anos de diferença), recolheu-se a um convento, fundado por si, em Moscovo, depois da morte do marido Sergei, irmão de Alexandre III

Depois de acordarem Ella e os seus companheiros, informaram-nos de que iam ser transferidos para um lugar mais seguro devido ao avanço do Exército Branco, repetindo a mesma história contada a Mikhail e ao irmão Nicolau. Foi-lhes pedido que preparassem uma mala de roupa leve. Não valia a pena levarem muita coisa — o resto seria enviado posteriormente. Ataram-lhes as mãos atrás das costas e taparam-lhes a cara para não saberem para onde iam. Todos cooperam, à exceção de Sergei Mikhailovich. O grão-duque foi o único que fez frente aos chekistas, dizendo que não ia a lado nenhum “porque sabia que iam todos ser mortos”. “Era mais forte do que os outros. Tivemos de o dominar à força”, recordou mais tarde Ryabov. Sergei tentou barricar-se num armário, mas o chekista perdeu a paciência e deu-lhe um tiro no braço. “Não ofereceu mais resistência.”

Para disfarçar, os bolcheviques dispararam armas e fizeram explodir granadas enquanto as carruagens que transportavam os prisioneiros saíam da Escola Napolnaya. Queriam dar a impressão de que os brancos já estavam a assaltar o estabelecimento de ensino para poderem dizer que os Romanov tinham morrido durante uma troca de tiros, caso fosse necessário. Ryabov tentou tranquilizar o grão-duque o melhor que pôde, mas também se sentia “muito agitado” com o que se tinha passado na Casa Ipatiev na noite anterior. “Digam-me porquê! Nunca me envolvi na política. Gostava de desporto, jogava bilhar e interessava-me pela numismática”, afirmou Sergei, desesperado. Ao contrário de Nicolau e de Alexandra, os prisioneiros de Alapaevsk sabiam que iam morrer.

“Não tínhamos mais granadas, mas não podíamos deixar o trabalho incompleto. Decidimos encher o poço com madeira e pegar-lhe fogo. Os hinos ecoaram através do fumo espesso durante algum tempo.”
Vasily Ryabov, um dos assassinos de Ella e dos seus companheiros

Os Romanov foram levados para os arredores de Alapaevsk. Por volta da uma da manhã, chegaram a uma antiga mina ferro, meio inundada. Foram obrigados a descer das carruagens e atirados para dentro do poço. Ella foi a primeira a ser empurrada, já sem sentidos, depois de ter sido espancada à coroada. A irmã Varvara foi a seguir. Os chekistas esperavam que as duas mulheres se afogassem mas, em vez disso, começaram a ouvir vozes. “Ficou claro que, depois de se ter arrastado da água, a grã-duquesa tinha também puxado a irmã para fora”, lembrou Ryabov. A mina não estava tão cheia quanto os chekistas pensavam mas, como não tinham uma “alternativa melhor”, decidiram prosseguir com o plano inicial e “atirar também os homens”. Ninguém se afogou. “Lancei uma granada. Explodiu e fez-se silêncio, mas não por muito tempo. Decidimos esperar um pouco para ver se eles tinham morrido. Ao fim de um bocado, ouvimos falar e um gemido. Lancei outra granada. E depois, o que julgam? Puseram-se a cantar ‘Salva o teu corpo, Senhor’.”

Depois de uma queda de vários metros e de duas granadas, os prisioneiros continuavam vivos. A única exceção era Sergei. Assim que chegou à mina, o grão-duque voltou a resistir e foi morto imediatamente com um tiro na cabeça. Sem mais explosivos que pudessem lançar, os chekistas decidiram encher o poço com madeira e pegar-lhe fogo. “Os hinos ecoaram através do fumo espesso durante algum tempo” até que, por fim, se fez silêncio. “Até o cenário macabro organizado por Yurovski na adega Ipatev fora menos horrendo”, considerou Robert Service.

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27 de janeiro: a morte dos últimos Romanov

A chacina não ficou por aqui. Ainda no mesmo mês, Nicolau Mikhailovich Romanov, o seu irmão Georgii, e Dimitri Konstantinovich, filho de Konstantin Konstantinovich Romanov, todos primeiros direitos do pai de Nicolau, Alexandre III, foram enviados para a Fortaleza de Pedro e Paulo, em Petrogrado. Os grãos-duques estavam detidos na prisão de Vologda, no noroeste da Rússia, desde o início do ano e tinham então descoberto que o czar tinha sido assassinado. A eles veio depois juntar-se-lhes o último filho de Alexandre II, Pavel Alexandrovich Romanov, que tinha 58 anos e uma saúde frágil. Era apenas uma questão de tempo até os quatro homens serem executados.

Isso acabou por acontecer a 27 de janeiro de 1919. Nicolau, Goergii e Dimitri foram acordados a meio da noite por guardas, que os conduziram ao pátio em frente à catedral de Petrogrado depois de os mandar despir-se até à cintura. Uma vez aí, foram mandados colocarem-se junto a uma vala cheia de cadáveres. Foram abatidos a tiro. Pavel, que estava demasiado doente para andar pelo próprio pé, teve de ser transportado numa maca, onde foi assassinado. Os corpos dos quatro grão-duques foram depois atirados para a sepultura. Foram os últimos Romanov a morrer às mãos dos bolcheviques.

Oficialmente, a morte de toda a família real nunca foi reconhecida. O Sovnarkom limitou-se a confirmar a notícia da execução de Nicolau e a apoiar a decisão, atribuída ao “Soviete de Ecaterimburgo”. A 19 de julho, antes de os bolcheviques abandonarem os Urais, as chefias decidiram fazer uma declaração pública na ópera de Glavny Prospekt. Havia demasiados rumores a circular. Goloshchyokin explicou aos habitantes de Ecaterimburgo que Nicolau tinha sido assassinado pelos comunistas da localidade siberiana em reação à “ameaça militar dos ‘bandos checoslovacos’” e que Alexandra e os filhos teriam sido poupados e transferidos para um local seguro. Esta tomada de posição — a única feita publicamente — libertou Moscovo de qualquer responsabilidade, transferindo toda a culpa para o Soviete Regional dos Urais. O que nunca ficou claro foi  o porquê de os líderes comunistas terem escolhido esconder a verdade.

Quem foram os Romanov assassinados pelos bolcheviques?

  • Mikhail Alexandrovich, filho mais novo de Alexandre III e irmão do czar;
  • Nicolau II, antigo czar de toda a Rússia;
  • Alexandra Fyodorovna (nascida princesa Alexandra de Hesse-Darmstadt), czarina;
  • Os cinco filhos de Nicolau e Alexandra: Olga (22 anos), Tatiana (21 anos), Maria (19 anos), Anastácia (17 anos) e Alexei (13 anos), herdeiro do trono e hemofílico (doença herdada da família do lado materno);
  • Isabel Fyodorovna (nascida Isabel de Hesse-Darmstadt), abadessa e irmã mais velha da czarina;
  • Sergei Mikhailovich, primo direito de Alexandre III, pai de Nicolau;
  • Vladimir Paley, filho de Pavel Alexandrovich, filho mais novo de Alexandre II, avô de Nicolau;
  • Três filhos de Konstantin Konstantinovich, neto de Nicolau I: Konstantin, Igor e Ioann;
  • Nicolau Mikhailovich, primo direito de Alexandre III;
  • Georgii Mikhailovich, irmão deste;
  • Dimitri Konstantinovich, outro filho de Konstantin Konstantinovich;
  • Pavel Alexandrovich, tio de Nicolau.

Como apontou Robert Service: “O raciocínio subjacente à recusa soviética em revelar quantos Romanov haviam sido mortos continua por revelar, não tendo ainda surgido qualquer documento que explique o motivo porque Sverdlov e Lenine adotaram esta abordagem”. O autor acredita que a “noção de que a execução dos cinco jovens Romanov levasse a uma repulsa generalizada tanto no país como no estrangeiro” talvez tivesse pesado. A política externa também poderá ter sido tomada em consideração. A czarina era alemã de nascimento e a sua morte às mãos de um esquadrão bolchevique poderia levantar problemas durante as negociações de paz com a Alemanha, uma das grandes lutas de Lenine.

O que é certo é que Vladimir Lenine e Yakov Sverdlov tentaram fazer com que a história fosse esquecida. A última notícia publicada num órgão de comunicação bolchevique sobre os Romanov é datada de 20 de julho (um dia depois de ter sido divulgado o decreto do Sovnarkom, presidido por Lenine, que decretava a confiscação de todos os bens da família rela) e diz respeito não a Nicolau e Alexandra, mais sim aos familiares que estavam detidos em Alapaevsk. Nesta nota, divulgada no jornal bolchevique dos Urais, contava-se a versão oficial do que tinha acontecido na madrugada de 18 de julho: os Romanov tinham fugido durante um ataque de “bandidos” e encontravam-se em parte incerta. A notícia — a única divulgada sobre os prisioneiros de Alapaevsk — teve pouco impacto, como referiu Service. Mais uma vez, o crime coincidiu com a evacuação da localidade, sobre ataque dos contrarrevolucionários. Quem ali vivia, tinha outras preocupações e os líderes soviéticos estavam a contar com isso. A partir daí, os Romanov desapareceram dos jornais. O paradeiro da czarina e dos filhos não chegou a ser esclarecido.

Os encobrimentos oficiais levaram ao surgimento de inúmeros relatos de avistamentos, com os bolcheviques dos Urais a alimentarem deliberadamente a confusão. Por toda a Sibéria, mas sobretudo em Perm, para onde os revolucionários se mudaram depois de deixarem Ecaterimburgo, começaram a surgir alegados membros da família Romanov, ao ponto de, antes do final do verão de 1918, existirem mais “do que a família tivera na última geração”, como apontou Robert Service. Anastácia, motivo de especulação durante várias décadas, foi uma das grã-duquesas a ser descoberta em Perm. Um procurador-adjunto responsável por uma investigação lançada em 1919 até descobriu provas concretas da passagem da filha do czar pela localidade siberiana, umas supostas receitas médicas passadas por um tal Dr. Utkin. A teoria de que Anastácia tinha sobrevivido ao massacre da Casa Ipatiev tornou-se mais popular na década de 1920, quando Anna Andersen foi descoberta num asilo mental de Berlim. A mulher (que na verdade se chamava Franziska Schanzkowska e tinha nascido na Polónia) afirmava ser a grã-duquesa.

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A viagem de Ella

Uma semana depois do assassinato da família real, Ecaterimburgo caiu nas mãos do Exército Branco. Alapaevsk foi conquistada poucos meses depois depois. Foram os contrarrevolucionários, que tinham dado início a uma investigação sobre a morte dos Romanov na Casa Ipatiev pouco tempo após a sua chegada à cidade, que terão descoberto os corpos de Ella e dos seus companheiros no fundo do poço para onde tinham sido atirados três meses antes, transferindo-os para a Catedral de Alapaevsk. Os restos mortais da irmã da czarina, e daqueles que tinham morrido com ela, ficaram na cidade dos Urais até julho do ano seguinte, altura em que, perante o avanço dos bolcheviques, iniciaram uma grande viagem.

Segundo Simon Sebag Montefiore, que relata o episódio no seu livro sobre a dinastia Romanov, um padre terá transferido os caixões das vítimas para Irkutsk, na Sibéria, a mais de três mil quilómetros de Alapaevsk. Como o terá feito, Montefiore não especifica. Daí, estes terão sido levados para Harbin, na Manchúria (hoje parque da República Democrática da China), e daí para Pequim, onde terão sido descobertos pela irmã mais velha de Ella e Alexandra Fyodorovna, Victoria Mountbatten, marquesa de Milford Haven, que vivia em Inglaterra. Foi graças a Victoria e ao marido, o marquês Louis Alexander Mountbatten, que, em janeiro de 1921, o cadáver de Ella e da irmã Varvara foram transladados para Jerusalém.

Os “caixões singelos” foram recebidos pelos marqueses de Milfod Haven na cidade de Port Said, no Egito, e transportados para a Palestina. Uma vez em Jerusalém, “o pequeno cortejo seguiu o seu caminho, triste e discretamente, até ao Monte das Oliveiras”, escreveu Louis Mountbatten, que acompanhou o processo de transladação juntamente com a mulher, citado por Montefiore. “Camponesas russas, peregrinas que tinham ficado bloqueadas na Palestina, soluçavam e gemiam e quase lutavam para se apoderarem de um bocado do caixão.” Os restos mortais foram depositados em sarcófagos brancos, com tampas de vidro, na Igreja de Maria Madalena, que tinha sido inaugurada por Sérgio e Ella, em 1888. As duas freiras foram posteriormente canonizadas pela Igreja Ortodoxa Russa.

“O pequeno cortejo seguiu o seu caminho, triste e discretamente, até ao Monte das Oliveiras. Camponesas russas, peregrinas que tinham ficado bloqueadas na Palestina, soluçavam e gemiam e quase lutavam para se apoderarem de um bocado do caixão.”
Louis Alexander Mountbatten, marido da irmã mais velha de Alexandra

Quanto aos restantes Romanov, seriam precisos vários anos até os seus corpos serem descobertos e os seus nomes restituídos à História russa. Um primeiro passo foi dado apenas uma semanas depois da morte da família real russa, com a abertura de um inquérito sobre o que se tinha passado na Casa Ipatiev pelos militares que tinham ocupado Ecaterimburgo a 25 de julho de 1918. Apesar de os dois juízes de instrução nomeados para o processo terem encontrado evidências de que o assassinato de Nicolau, Alexandra e os filhos tinha acontecido, não foram capazes de descobrir onde estavam enterrados os corpos. Nikolai Sokolov, um juiz de Omsk, foi o único capaz de encontrar os primeiros vestígios relacionados com a chacina da Casa Ipatiev, na zona da mina dos “Quatro Irmãos”. Pequenos pedaços de ossos queimados, sapatos, pérolas e até balas — Sokolov encontrou um pouco de tudo no interior do poço onde os bolcheviques tinham atirado os corpos e até chegou a identificar o local onde o camião Fiat tinha avariado. Nunca chegou a descobrir as sepulturas que, sem saber, tinha pisado.

Quando Ecaterimburgo voltou a cair nas mãos do Exército Vermelho, no ano seguinte, Sokolov teve de abandonar a investigação. Incapaz de desistir do caso, o juiz de Omsk levou consigo todo o material recolhido ao longo de um ano. O seu trabalho só seria concluído várias décadas depois, pelos investigadores amadores Alexander Avdonin e Geli Ryabov que, em maio de 1979, descobriram a primeira sepultura no bosque de Koptyaki depois de analisarem as fotografias tiradas por Yurovsky em 1918. “Encontraram crânios e ossos, mas a investigação coincidiu com o auge da estagnação reestalinizada de Leonid Brejev”, que liderou a União Soviética entre 1964 e 1982, referiu Simon Sebag Montefiore no seu livro dedicado à história da dinastia Romanov. “A sua descoberta chegou antes do tempo político certo. Reenterraram os ossos.” Foi só após a queda do regime comunista, em 1991, que foram exumados.

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Novamente juntos em São Petersburgo

No dia 11 de julho de 1991, depois de três dias de escavações, uma expedição oficial da Federação Russa exumou os ossos encontrados no bosque de Koptyaki por Alexander Avdonin e Geli Ryabov no final dos anos 70. Foram identificados nove esqueletos, pertencentes a quatro homens e cinco mulheres. Apesar de faltarem dois membros da família real, a 17 de julho, o presidente do Comité Executivo da Região de Sverdlovsk, a que pertence Ecaterimburgo, Eduard Rossel, anunciou numa conferência de imprensa que os restos mortais pertenciam “muito provavelmente” a Nicolau II, à sua família e aos criados que tinham viajado com eles até à cidade.

Esta assunção foi confirmada por testes de ADN, realizados entre 1993 e 1995 nos Estados Unidos da América, Reino Unido e Rússia, na sequência da abertura de um processo de investigação às mortes dos Romanov. Alexandra foi identificada com a ajuda do príncipe Filipe, duque de Edimburgo, marido da rainha Isabel II, que disponibilizou o seu ADN. Filipe é filho da princesa Alice de Battenberg, filha de Victoria, a irmã mais velha da czarina. Nicolau foi identificado graças ao ADN de três parentes vivos. Depois de muitas investigações forenses, chegou-se à conclusão de que faltavam os corpos de Alexei e de Maria (inicialmente, os especialistas acharam que era Anastácia que estava desaparecida).

Os Romanov foram sepultados na Catedral de Pedro e Paulo, em São Petersburgo. A cripta inclui placas com o nome de cada membro da família real, incluindo Alexei e Maria

Apesar dos resultados dos testes, a Igreja Ortodoxa Russa mostrou-se relutante em reconhecer os restos mortais encontrados em Ecaterimburgo. Para justificar a sua posição, a instituição religiosa recorreu à falta de evidências mais concretas: além de faltarem dois corpos, não tinham sido encontradas roupas ou quaisquer outros vestígios que pudessem provar a autenticidade dos cadáveres. E pior: o mau trabalho feito pelos soviéticos tinha destruído o local onde se encontrava a sepultura. Ainda assim, o governo russo decidiu avançar com as cerimónias fúnebres e sepultar Nicolau e a família na Catedral de Pedro e Paulo, em São Petersburgo, local de enterro dos Romanov desde Pedro, o Grande. A Igreja absteve-se de participar no funeral, admitindo que preferia que as vítimas permanecessem numa sepultura “simbólica” até que a questão da autenticidade fosse resolvida.

Nicolau e a família foram sepultados a 17 de julho de 1998, data do 80º aniversário do seu assassinato, durante uma cerimónia que contou com a presença de trinta dos seus descendentes. Apesar de inicialmente ter afirmado que não iria participar, o presidente Boris Yeltsin também compareceu acompanhado pela mulher. Durante o discurso que fez na catedral de São Petersburgo, Yeltsin afirmou que aquele era “um dia histórico para a Rússia”. “Estivemos muito tempo calados acerca deste crime monstruoso. Temos de dizer a verdade: o massacre de Ecaterimburgo tornou-se num dos episódios mais vergonhosos da nossa história”, disse. Considerando que “ao enterrarmos os restos mortais de vítimas inocentes”, estavam a “expiar os pecados” dos seus antepassados, o presidente da Federação Russa admitiu, pela primeira vez, que a culpa não era apenas de um, mas de todos: “Somos todos culpados. Não podemos mentir a nós próprios e tentar justificar a crueldade sem sentido com base na política. O fuzilamento da família Romanov foi o resultado de uma divisão na sociedade russa, entre ‘nós’ e ‘eles’. Os resultados dessa divisão podem ser vistos ainda hoje.”

“Estivemos muito tempo calados acerca deste crime monstruoso. Temos de dizer a verdade: o massacre de Ecaterimburgo tornou-se num dos episódios mais vergonhosos da nossa história. Ao enterramos os restos mortais de vítimas inocentes, estamos a expiar os pecados dos nossos antepassados.”
Boris Yeltsin, presidente da Federação Russa de 1991 a 1999

Afirmando que “muitas páginas gloriosas da história da Rússia estão ligadas aos Romanov”,  Boris Yeltsin lamentou que o nome da família real estivesse “ligado a uma das lições mais amargas: qualquer tentativa para mudar a vida através da violência está condenada ao fracasso”. “Temos de chegar ao fim deste século, que foi uma era de sangue e de violência na Rússia, com arrependimento e paz, independentemente das posições políticas, da etnia ou da crenças religiosas”, disse ainda o presidente. “Esta é a nossa oportunidade histórica.”

O discurso de Yeltsin foi por si só um momento histórico — foi a primeira vez que um alto membro do governo admitiu o que a Rússia tinha feito. Ao fazê-lo, Yeltsin talvez estivesse a pensar no seu próprio arrependimento: em 1977, enquanto primeiro-secretário do Partido Comunista de Sverdlovsk, ordenou a demolição da Casa Ipatiev. YuriAndropov, presidente do KGB, receava que se tornasse num “objeto de muita atenção” por parte dos “círculos antissoviéticos do ocidente” e sugeriu a sua destruição. No seu lugar, foi construída a Igreja do Sangue em Honra de Todos os Santos Resplandecente na Terra Russa (uma das maiores do país), depois do fim da União Soviética. Apesar do desaparecimento da Casa Ipatiev, a colina transformou-se num local de peregrinação.

Em 2001, um ano depois da canonização da Nicolau, Alexandra e os filhos pelo Patriarca de Moscovo (a família já tinha sido canonizada em 1981, pela Igreja Ortodoxa fora da Rússia), foi construído na zona de Ganina Yama o Mosteiro Imperial dos Santos Portadores da Paixão, com sete capelas dedicadas a cada membro da família imperial. Uma cruz alta marca o local onde ficava o poço.

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Um capítulo ainda por encerrar

Durante a escavação da mina dos “Quatro Irmãos”, nos arredores de Ecaterimburgo, foram identificados nove corpos. Os restos mortais de Alexei e de Maria, a terceira filha do czar e da czarina, não chegaram a ser encontrados. Isso só aconteceu muitos anos mais tarde, em agosto de 2007. Tal como nos anos 70, as vítimas foram descobertas por um grupo de especialistas sem quaisquer ligações governamentais, que foram capazes de chegar aos corpos das duas crianças depois de descobrirem a pista que faltava nos antigos relatórios soviéticos. Foi a partir daí — de uma única frase proferida por Yurovsky — que os investigadores conseguiram encontrar a segunda sepultura, a apenas 64 metros do local onde tinham sido sepultados Nicolau e a restante família.

Apesar de o bosque de Koptyaki se ter tornado num local de peregrinação depois da morte dos Romanov (por mais que os bolcheviques tivessem tentado esconder o que aconteceu na noite de 17 de julho de 1918, a história espalhou-se rapidamente) e das investigações levadas a cabo desde a descoberta da primeira sepultura, até ao verão de 2007 ninguém tinha sido capaz de encontrar os dois cadáveres em falta, enterrados sob uma pequena elevação entre as árvores. Isso deveu-se sobretudo ao facto de, durante décadas, as palavras de Yakov Yurovsky terem sido mal interpretadas — ao contrário do que sempre se pensou, no relatório, o revolucionário não disse ter enterrado os corpos em duas covas abertas uma ao lado da outra, mas sim em duas sepulturas na mesma área. A confusão foi gerada por uma expressão em russo (“tot zhe”) que pode significar as duas coisas. O historiador Vitaly V. Shitov, acompanhado por membros de um clube de história militar de Ecaterimburgo chamado “Escudo da Montanha”, foi o primeiro a tentar alargar a área de investigação, terminando o trabalho começado por Alexander Avdonin, em 1998.

Trabalhando aos fins de semanas, o grupo começou por identificar a fogueira que Yurovsky disse ter usado para tentar queimar os corpos. Depois de três expedições, a 29 de agosto de 2007, os exploradores, supervisionados pelo arqueólogo Sergei Pogorelov, conseguiram finalmente encontrar os restos mortais que procuravam. Ao todo, foram encontrados 44 fragmentos de ossos e dentes. Estavam queimados e tinham sido enterrados juntamente com vasos, usados para derramar ácido sobre os corpos. Aos olhos dos investigadores, isso confirmava a autenticidade das ossadas — o cenário era muito semelhante ao encontrado na primeira sepultura, em “Porosenkov Log”.

A descoberta da segunda sepultura no bosque de Koptyaki apresentou-se desde logo como a oportunidade ideal para confirmar os testes feitos nos anos 90 que, apesar das evidências, levantaram algumas dúvidas dentro da comunidade científica russa e, sobretudo, da Igreja Ortodoxa Russa. O Capitão Peter Sarandinaki, presidente da S.E.A.R.C.H. — uma fundação com sede nos Estados Unidos da América criada para apoiar financeiramente a investigação e descoberta dos Romanov assassinados depois da Revolução de Outubro –, que participou nas buscas iniciais pelos corpos de Alexei e da irmã no final dos anos 90 a pedido de Alexander Avdonin, foi convidado para coordenar os novos testes de ADN pelo Coronel Vladimir Soloviev, o oficial russo responsável pela investigação do assassinato dos Romanov. Estes foram efetuados de forma independente por quatro laboratórios distintos e os resultados divulgados em dezembro de 2008. A correspondência foi de 100%, ficando assim confirmada a autenticidade não só dos restos mortais da primeira sepultura, como também dos da segunda. Alexei e Maria tinham sido finalmente encontrados.

“Havia muitas perguntas, e a Igreja está a tentar responder a tudo. Não nos podemos esquecer que estamos a lidar com santos. Tudo tem de ser clarificado, toda a gente tem de ter a certeza.”
Peter Sarandinaki, presidente da fundação S.E.A.R.C.H.

Apesar de os especialistas terem confirmado a autenticidade dos restos mortais, a Igreja Ortodoxa Russa voltou a ter dúvidas. E a morte de Alexei II, no dia em que foram divulgados os resultados dos novos testes de ADN, a 5 de dezembro de 2008, só veio dificultar a situação. “O novo patriarca, Cirilo I, disse que não se podia tomar uma decisão como aquela naquele momento. Havia demasiadas perguntas por responder”, contou ao Observador o Capitão Peter Sarandinaki. “A Igreja não pode cometer erros.” Durante oito anos, os ossos estiveram guardados dentro de duas pequenas caixas de cartão seladas com fita adesiva no interior de um cofre dos Arquivos Nacionais russos, em Moscovo. Até que, em 2015, depois de muita pressão feita pelos descendentes da família real, a Comissão de Investigação do Ministério do Interior reabriu o inquérito “para possibilitar à Igreja a verificação da identidade de toda a família através do ADN de Nicolau e Alexandra (que foram brevemente exumados), de Ella (que jaz em Jerusalém), de Alexandre II (através do seu capote ensanguentado que se encontra no Hermitage) e de Alexandre III”, pai do último czar, escreveu Simon Sebag Montefiore no seu livro.

De acordo com o presidente da S.E.A.R.C.H., que tem vindo a colaborar diretamente com a equipa de investigadores na Rússia através do envio da informação que foi recolhendo ao longo dos anos (esta já encontrava-se disponível às autoridades russas, mas Peter Sarandinaki teve de a enviar novamente), estão a participar na operação “cientistas de todos os campos”, mas também historiadores e arquivistas que estão à procura das respostas para todas as questões. “Acredito que é trabalho honesto, mas muito lento. Têm o tempo do seu lado”, defendeu o norte-americano, bisneto do Tenente-General Sergey Nikolaevich Rozanov, líder do Exército Branco que libertou Ecaterimburgo das mãos dos bolcheviques seis dias depois do assassinato dos Romanov, e neto do Coronel Kiril Mihailovich Naryshkin, adjunto de Rozanov. Os dois militares foram dos primeiros a entrar na Casa Ipatiev depois da conquista da cidade.

O processo ainda não terminou: em 2016, Cirilo I, voltou a defender que a instituição religiosa russa tem dúvidas em relação às investigações feitas no tempo de Boris Yeltsin. Para Peter Sarandinaki, que dedicou os últimos 27 anos da sua vida a procurar os restos mortais dos familiares desaparecidos de Nicolau II, a grande dificuldade prende-se com o facto de os Romanov terem sido canonizados pela Igreja Ortodoxa, dentro e fora da Rússia. “Eles são santos”, o que significa que têm direito a ser enterrados como tal. E para que isso aconteça, a Igreja Ortodoxa Russa “tem de ser convencida”. “Havia muitas perguntas, e a Igreja está a tentar responder a tudo. Não nos podemos esquecer que estamos a lidar com santos. Tudo tem de ser clarificado, toda a gente tem de ter a certeza.”

É impossível prever quanto tempo irá ser preciso até a Igreja Ortodoxa Russa anunciar a sua posição final relativamente à questão Romanov. “Acho que a próxima sessão do Sínodo [da Igreja Ortodoxa Russa, a 14 de julho,] não vai tocar no assunto, apesar de só recebermos a ordem de trabalhos no dia anterior”, disse recentemente à agência de notícias TASS o responsável pelo departamento de relações externas da Igreja, frisando que, se a questão do reconhecimento dos restos mortais dos Romanov estivesse para ser discutida, os membros do Sínodo já teriam sido informados. Uma coisa, porém, é a certa: “Para a Igreja tomar uma decisão final, todas as questões devem ser respondidas”, afirmou o Capitão Peter Sarandinaki, acrescentando que, “quando a Igreja estiver pronta”, fará o anúncio. “Eles querem ser convencidos. Querem acreditar no seus cientistas, na sua equipa que está a fazer o trabalho. Acho que isto vai acabar bem, mas as pessoas têm de ser pacientes.” Apesar das acusações de que a Igreja tem procurado atrasar o processo, Sarandinaki não culpa os ortodoxos russos de nada. “Estou muito contente que estejam a perder tempo e a fazer o que estão a fazer porque é muito importante que a Igreja esteja realmente convencida”, afirmou, acrescentando que é fundamental encerrar este capítulo negro da história russa.

“É um caso muito importante que tem de ser fechado. Precisamos de o encerrar para a família, para a Rússia e para nós [descendentes de russos], que vivemos longe.”
Peter Sarandinaki, presidente da fundação S.E.A.R.C.H.

“Sou o presidente da fundação S.E.A.R.C.H. desde 2007, com o propósito de angariar fundos para procurar [os restos mortais dos Romanov], para ajudar a fechar este triste capítulo na História mundial. Este crime foi cometido há 100 anos e mudou o curso da História”, disse ao Observador. “Levou à subida ao poder dos comunistas, e isso mudou todo o século XX até agora. Mudou a História. É um caso muito importante que tem de ser fechado. Precisamos de o encerrar para a família, para a Rússia e para nós [descendentes de russos], que vivemos longe.”

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À procura de Mikhail

Para o Capitão Peter Sarandinaki, presidente da S.E.A.R.C.H., o caso de Alexei e Maria está encerrado. É só uma questão de tempo até a Igreja Ortodoxa Russa divulgar os resultados e fechar esse capítulo negro da História russa. Há outro, porém, que continua em aberto: até hoje, nunca foram descobertos os corpos de Mikhail Romanov, o irmão mais novo de Nicolau, e do seu secretário, Nicholas Johnson, os primeiros a serem assassinados naquele verão de 1918, cerca de um mês antes da chacina da Casa Ipatiev. Sarandinaki decidiu procurar os restos mortais do grão-duque depois de ter terminado o seu trabalho na identificação de Alexei e Maria, em 2004. Para isso, decidiu entrar novamente em contacto com o geofísico Vladimir Konstantinov, com quem tinha trabalhado no caso dos dois filhos de Nicolau II.

Foi Konstantinov que, durante as buscas por Alexei e Maria, revelou ao capitão reformado da Marinha norte-americana que os corpos de Mikhail e do seu secretário Johnson, assassinados nos arredores de Perm em junho de 1918, nunca tinham sido encontrados. “Assim que acabei o trabalho de ADN [de Alexei e Maria], liguei-lhe e disse-lhe para irmos a Perm ver o que é que podíamos fazer”, contou o presidente da S.E.A.R.C.H. ao Observador. Sarandinaki e Konstantinov deslocaram-se até à cidade, localizada junto aos Montes Urais, em 2009 e 2012, mas o trabalho sofreu uma reviravolta com a súbita morte do geofísico em 2013. Peter Sarandinaki, que queria continuar com as investigações, pediu ajuda a “velhos amigos” e formou uma equipa de especialistas de diferentes áreas, dos Estados Unidos e Reino Unido, que trabalham sem receber sem receber nada em troca. “Somos todos voluntários”, explicou ao Observador. Os descendentes das vítimas também têm participado, e o apoio governamental também tem sido fundamental: “Temos o apoio do distrito governamental de Perm, do governador da região, da polícia local e da Igreja. Toda a gente está a trabalhar connosco, até os arquivos”.

Os descendentes dos Romanov continuam à espera que a família seja finalmente reunida em São Petersburgo, antiga capital do império russo

Desde o início dos trabalhos, em 2009, que Sarandinak tem colaborado diretamente com os arquivos russo, acumulando toda a informação relativa ao assassinato do grão-duque. Este ano, foi dado mais um salto importante nessa pesquisa e o presidente da S.E.A.R.C.H. acredita estar muito perto de encontrar a sepultura do irmão do czar e do seu secretário. “Recolhemos muita informação. Os arquivo estão a tentar encontrar toda a informação [existente]. Havia oito ou nove versões sobre onde os restos mortais poderiam estar, mas nos últimos oito anos temo-nos concentrado naquela que é a mais importante, a mais viável. Este ano, os arquivos confirmaram-nos que estamos há procura no sítio certo”, explicou.

Esse “sítio certo” é uma área de cerca de um quilómetro no topo da “Montanha Vermelha”. “Dividimos esse quilómetro em secções e, a cada ano, investigamos uma secção diferente.” Até agora, foi encontrada uma estrada de pedra (feita por trabalhadores alemães nos anos 40 e abandonada na década seguinte), coberta por árvores, vestígios de uma ponte, de uma antiga fábrica de sapatos, oito balas, descobertas numa encosta, mas nada diretamente ligado ao grão-duque ou ao seu secretário. “Eles não estavam em nenhuma das secções que investigámos até agora, e isso é importante”, afirmou o Capitão Peter Sarandinaki. “A área de pesquisa está a ficar cada vez mais pequena.” Isso significa que, “nos próximos três anos”, Sarandinaki e a sua equipa irão encontrá-los. Isto, “se eles lá estiverem”. “Sabemos que percorreram cinco quilómetros desde Perm e que viraram à direita. [Algumas fontes] falam em 100 metros ou mil metros, ou seja, um quilómetro. As estradas já não estão lá mas, com o equipamento disponível, fomos capazes de as encontrar. Ainda estamos à procura de outras estradas que possam ter sido usadas e que desapareceram.” Passados 100 anos, a paisagem está muito diferente, mas Sarandinaki acredita que “têm boas pistas para o próximo ano”. “Temos a ajuda dos russos.”

Acima de tudo, o Capitão Peter Sarandinaki espera que, ao encontrar os corpos dos Romanov que morreram às mãos dos bolcheviques, ajude as suas famílias a ultrapassar o que aconteceu em 1918. “Espero que, ao encontrar os restos mortais, e depois com a aceitação da Igreja [Ortodoxa Russa], se dê um passo na união do povo russo. Os bisnetos não têm culpa do que os bisavôs fizeram. É a História.” Sarandinaki, que soube tudo que aconteceu aos Romanov quando tinha dez anos, através da avó, cresceu com este passado negro. Tal como muitos outros russos e descendentes de russos, conhece bem o peso da História.

Fotografias: Wikimedia Commons e MLADEN ANTONOV/AFP/Getty Images.


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