O comunismo em Roraima

Entrevista com o prefeito Paulo César Quartiero

 

A retirada dos brancos da Reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima, não convém ao Brasil. Há, entretanto, interesses internacionais representados por ONGs estrangeiras que manipulam nossos índios.

 

 

O gaúcho e desbravador Paulo César Quartiero, 55 anos, tornou-se protagonista de feitos dignos de admiração no que se refere à conquista e manutenção da brasilidade setentrional do País, em Roraima.

 

Seu modo de pensar e agir promete ser um divisor de águas na questão indígena no Brasil, que de um momento para outro gerou uma polêmica que está longe do fim. Prefei­to do município de Pacaraima, na reserva indígena São Marcos, preside a Associação estadual dos Arrozeiros. Além disso, possui as maiores lavouras de arroz e soja na área que o governo federal quer desapropriar: a já bastante conhecida Reserva Raposa/Serra do Sol.

 

Paulo Quartiero está em Roraima desde 1976, quando, recém-formado em Agronomia, mudou-se para lá na caudal política da colonização de nossas fronteiras agrícolas lançada pelos governos militares da época, sob o lema inte­grar para não entregar.

Em entrevista concedida há três meses aos colaboradores de Catolicismo, Paulo Henrique Chaves e Nelson Ramos Barretto, o tema da defesa de nosso território é o ponto-chave de seu empenho em permanecer na área, posição que agora depende de decisão do Supremo Tribunal Federal.

 

 

Catolicismo — O que vem ocorrendo em Ro­raima nestes últimos tempos?

 

Sr. Paulo Quartiero — É a indignação de sua população contra a política do governo federal em relação ao estado de Roraima. Não se trata apenas da reação de meia dúzia de fazendeiros rurais, co­mo parece estar sendo difundido Brasil afora. A reserva Raposa/Serra do Sol é uma en­tre cerca de 40, mas que ganhou especial interesse porque é onde se encontra a produção do estado.

 

Foi exatamente a essa região que os primeiros colonizadores chegaram. Seus habitantes –– índios, não-índios e mestiços –– têm um sentimento muito arraigado pela região. Na verdade, a população daqui não aceita a po­lítica do PT para Roraima. No úl­timo pleito nacional, Lula perdeu no estado; aliás, ele nunca veio aqui enquanto presidente.

 

 

Catolicismo — Qual é, a seu ver, a situação de Roraima como um estado da Federação? O senhor crê que o estado ainda é tratado como mero Território por parte do governo federal?

 

Sr. Paulo Quartiero — Roraima não deseja e nem precisa viver às expensas da nação brasileira. O estado apresenta um potencial agrícola muito grande. Julgo isso assim enquanto agrônomo, filho e neto de produtores rurais. Considero Roraima um dos melhores locais do País para produzir.

 

Outra coisa que o estado não quer é ser uma mini-Bras­ília e viver, como se costuma dizer, de “chapa branca”, sem produção. Com um território quase do tamanho do estado de São Paulo, Roraima tem apenas 400 mil habitantes, o equivalente à população de um bairro da capital paulista.

 

E mesmo assim, por incrível que possa parecer, o governo federal quer tirar as pessoas de suas propriedades alegando falta de terras para alguns poucos índios. Estamos nos sentindo tolhidos em nossa vocação de desbravadores, de produtores, em nossa ânsia de progresso. A política atual de Brasília implica na eliminação de qualquer possibilidade de as pessoas progredirem. E impede até o progresso dos índios. Os defensores de tal política certamente querem que os pobres indígenas fiquem confinados para sempre em jardins antropológicos e eternamente explorados por ONGs e grupos religiosos com interesses muito pouco definidos e convincentes em relação a eles.

 

Catolicismo — Para o Sr., que é protagonista da história de Roraima desde 1976 – depois dessa data a população saltou de 40 mil para 400 mil habitantes – qual seria a política ideal para fazer cessar toda essa confusão aqui reinante?

 

Sr. Paulo Quartiero — O governo federal precisa permitir ao estado levar sua vida própria dentro do regime federativo. Se ele não quiser ajudar, pelo menos não atrapalhe. Toda essa questão indígena do estado e o conflito gerado aqui dentro são importados. O estado precisa ter autonomia para afastar as pessoas de fora que vêm aqui para estabelecer as balizas da política local.

 

Antes da demarcação de terras indígenas por parte do governo federal, em Roraima nunca houve conflitos. Temos capacidade para traçar nosso plano de desenvolvimento. Temos a obrigação de povoar nossas fronteiras, de garantir nelas a presença brasileira, sob pena de um dia perdermos partes do território, tão árdua e heroicamente conquistado pelos nossos antepassados.

 

Por outro lado, Roraima tem a vocação e a obrigação de ser o celeiro da Amazônia. Temos quatro milhões de hectares de cerrado — o que aqui intitula-se lavrado ou savana — onde se pode produzir sem desmatar uma árvore sequer. O que se quer fazer com Roraima é um contra-senso: retirar os brasileiros e substituí-los por ONGs estrangeiras.

 

 

 

Catolicismo — Existem muitas ONGs atuando aqui na região? Que tipo de trabalho elas realizam?

 

 

Sr. Paulo Quartiero — Existem sim, e todos de Roraima as conhecem bem. Há uma delas que se propôs desenvolver um Programa de Proteção das Terras da Amazônia Brasileira. Parece ter sido ela fruto de um acordo entre Brasil e Alemanha, quando Luís Felipe Lampreia era ministro das Relações Exteriores do governo Fernando Henrique Cardoso. Pelo estabelecido no acordo, as áreas indígenas não teriam mais fiscalização dos governos federal e estadual. Ou seja, duas ONGs alemãs se encarregaram de fiscalizar as áreas demarcadas para as reservas indígenas! Se levarmos em conta que tais áreas confinam pelo leste com a Guiana Inglesa — que, aliás, acabou de ceder suas florestas para a Inglaterra — e ao norte com a Venezuela, temos ainda o contencioso das FARC, um pouco mais além. 

 

Diante de tudo isso, não parece sensato entregarmos a guarda de nosso território a ONGs que ninguém sabe de onde vêm e a serviço de quem elas estão.

 

 

 

Catolicismo — E o trabalho desenvolvido pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil?

 

Sr. Paulo Quartiero — Infelizmente não tem sido bom. Esses padres e religiosos certamente pertencem à ala da Teologia da Libertação e trabalham atiçando índios contra não-índios, concorrendo assim para a criação de conflitos sociais e mesmo religiosos. Na verdade, eles querem não apenas a retirada dos produtores rurais da região, mas de toda a população brasileira radicada aqui. E isso não nos interessa, não interessa aos índios e ao Brasil. A quem interessa? Tudo indica que apenas a organismos internacionais.

 

Essas ONGs, na verdade, utilizam-se do índio como meio para conseguirem dinheiro no exterior. Muitas vezes elas disputam entre si determinadas áreas como reservas de mercado, e quem acaba sendo explorado é o índio, que elas dizem defender. Está sendo feito aqui um verdadeiro apartheid. Fa­mílias que convivem há séculos vão se separar porque o mari­do é branco e a mulher é índia. E como ficarão os filhos? É isso que vem causando indignação em nossa população ordeira, pacífica e, sobretudo, muito brasileira. Caso tal política do governo continue, a situação não fará senão piorar.

 

Catolicismo — Pela posição de resistência que o Sr. vem assumindo, além de ter sido algemado e preso durante uma semana em Brasília, sofreu algum outro tipo represália?

 

Sr. Paulo Quartiero — Sim. Por exemplo, recebi uma multa de trinta milhões de reais sob alegação de dano ambiental. O governo federal, o CIMI, a FUNAI e as ONGs exploram o assunto através de questões simpáticas à opinião pública, e delas fazem uso político. Por exemplo, quem é contra preservar a natureza? Quem é contrário à preservação de uma minoria étnica?  31/12/08 (12 horas atrás) Don Fernando

Entretanto, aqui em Roraima o governo federal e as entidades acima mencionadas vêm utilizando isso como escudo para atender a interesses muito pouco claros, que certamente nos prejudicam, como por exemplo, o de uma tutela internacional sobre a nossa Amazônia. Já temos visto declarações no estilo de que o Brasil não pode ser o único detentor da Amazônia, de que não é suficientemente sério para cuidar sozinho da Amazônia, etc. Tenho lido e ouvido isso em palestras das quais tenho participado pelo Brasil afora, inclusive de altas autoridades brasileiras.

 

 

 

Catolicismo — E se acontecer de o STF decidir pela demarcação contínua da Reserva Raposa Serra do Sol?

 

Sr. Paulo Quartiero — As conseqüências serão desastrosas para nós, para o estado, e sobretudo para o Brasil. Será o reconhecimento da falta de zelo de nossas autoridades por um território que foi árdua e valorosamente conquistado por nossos antepassados. Pode-se até não levar em conta o potencial agrícola de Roraima, apesar de ele ser rico e necessário. Mas nossa população certamente não vai se submeter a isso.

 

Apresento em defesa dessa posição algumas razões. Se se proibir as pessoas de trabalhar e produzir, como acondicioná-las? A questão não é a demarcação da área indí­gena, mas sim da política brasileira para a Amazônia que precisa ser mudada. Esta questão do preservacionismo, a meu ver, é uma política nociva aos interesses do País. Explorar nossas riquezas sem agredir o meio ambiente é uma posição razoável. Mas esse preservacionismo puro que engessa o País, proibindo-o de explorar suas riquezas naturais, inibe o nosso desenvolvimento. Isso só poderá servir a interesses alienígenas. 

 

Catolicismo — Pelo visto, a questão da Reserva Indígena Raposa/Serra do Sol transcende sua própria importância e acena para uma temática muito maior dentro do quadro atual da política brasileira…

 

Sr. Paulo Quartiero — Penso que se trata de um marco divisor, além de ser muito emblemático, pois inclui até a presença brasileira na Amazônia. Afirmo que a batalha da Amazônia já começou. Começou em Roraima e por Roraima.

 

 

 

Catolicismo — Caso continue este estado de tensão em Roraima, há risco de correr sangue de irmãos por aqui?

 

Sr. Paulo Quartiero — O que existe em Roraima é terrorismo. Mas terrorismo de Estado. A União vem fazer terrorismo em Roraima, seqüestrando as terras do estado, desalojando famílias estabelecidas e não permitindo que o estado tenha possibilidade de progredir economicamente. Nós, desde o começo, fomos a favor da judicialização da questão. O povo daqui é como todo brasileiro. Até os índios –– na verdade, todos aculturados –– têm o temperamento brasileiro. É por isso que desejamos que se aguarde a decisão do Supremo Tribunal Federal.

 

Diante dessa atitude do povo roraimense, o ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou que ia combater a barbárie aqui. Mandou então um exército de 500 policiais federais e guardas nacionais, que vêm se comportando como se fossem os mari­nes ame­ricanos no Iraque, com a diferença de que os terroristas somos nós. Eles estão oprimindo nossa população, humilhando todo mundo.

 

Será possível que o ministro não sabia que tínhamos 33 ações tramitando no Supremo? Sem contar que fez um gasto extraordinário para enviar e manter essa gen­te até hoje aqui, à custa dos cofres públicos. Como a população reagiu, o Supremo tomou a decisão correta, acatando liminar pedida pelo governo estadual solicitando que se aguardasse a decisão final.

 

 

 

Catolicismo — Ocorreram ferimentos de índios numa invasão efetuada em sua fazenda. Como sucedeu isso? 

 

 

Sr. Paulo Quartiero — O grande culpado pelo que houve foi o ministro Tarso Genro. Quando saiu a liminar do STF, houve uma invasão — que nós chamamos de invasão “chapa branca” — na minha fazenda. “Chapa branca” porque promovida pela FUNAI, com índios transportados pelos padres do CIMI, com o apoio da Polícia Federal. Assim, eles invadiram as fazendas. Por quê? — Eles queriam fazer um “mártir”. Imaginavam uma reação violenta da qual surgisse um “mártir”, para assim conseguirem uma nova Doroty Stang ou um novo Chico Mendes. “Mártir”, graças a Deus, não houve. Infelizmente houve alguns feridos, pessoas inocentes que foram para lá iludidas. Os reais responsáveis pela invasão estavam em salas com ar-­condicionado, esperando uma vítima para depois comemorarem o ocorrido com o sangue alheio… Desse modo, as ONGs encheriam o bolso de dinheiro.

 

Estou certo de que, se o governo federal continuar com essa política do PT, tal teatro vai se repetir entre nós.

 

 

 

Catolicismo — O Sr. acredita na possibilidade de uma insurreição em Roraima, caso o STF mantenha a decisão de demarcação da reserva com área contínua?

 

Sr. Paulo Quartiero — É difícil dizer, pois não se trata de uma questão matemática, mas sim de sentimento. E o sentimento aqui é de um povo ultrajado, que presencia a bandeira nacional ser pisoteada, enquanto os estrangeiros dão as ordens. É o sentimento de a pessoa se sentir humilhada em seu próprio País. Como se trata de sentimentos, não se pode aquilatar. Pode surgir revolta? — Pode. Pode dar em nada? —Também pode.

 

 

(REVISTA CATOLICISMO DE NOVEMBRO DE 2008)

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